A Turquia gerou polêmica nesta quinta-feira (26) ao suspender a transmissão de um dos seus principais canais críticos ao governo, a Halk TV, por um período de dez dias. A decisão foi tomada após declarações de um comentarista do canal, que criticou o crescente sectarismo religioso no país. Além da suspensão, o Conselho Supremo de Rádio e Televisão (RTÜK) aplicou multas pesadas a três emissoras, incluindo a Halk TV, Tele1 e Sözcü TV.
O motivo das penalidades está relacionado a opiniões veiculadas em programas de debate, especialmente críticas ao partido AKP, que governa a Turquia desde 2002 sob a liderança do presidente Recep Tayyip Erdogan. O RTÜK classificou as declarações como um “desrespeito e humilhação além da crítica legítima”, acusando as emissoras de incitação ao ódio.
O comentário que gerou a suspensão da Halk TV foi de um de seus comentaristas, que afirmou que a Turquia não estava se tornando mais religiosa, mas sim mais dividida entre diferentes correntes religiosas. Esse tipo de discurso é visto pelas autoridades como uma afronta direta ao poder vigente, especialmente em um contexto onde a política religiosa tem grande influência no país.
Ilhan Tasçi, membro do RTÜK e representante do partido opositor CHP, criticou abertamente a decisão, acusando o órgão de usar a “espada da censura” para calar as vozes dissonantes. Tasçi também alertou sobre a possibilidade de outras emissoras críticas enfrentarem a mesma sorte, com o risco de terem suas licenças de operação totalmente revogadas.
A pressão sobre os veículos de comunicação críticos ao governo não é novidade na Turquia. Nos últimos anos, multas e suspensões têm sido um método frequente de repressão, colocando em risco a sobrevivência econômica de muitos canais e jornais independentes. Em um contexto de crescente controle estatal sobre a mídia, com cerca de 90% dos meios de comunicação sob influência direta ou indireta do governo, o espaço para a liberdade de expressão tem diminuído consideravelmente.
A ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) já havia destacado, em seu ranking de liberdade de expressão, que a Turquia ocupa uma preocupante 159ª posição, em um universo de 180 países. Para a RSF, o governo turco tem se valido de todos os recursos disponíveis para silenciar aqueles que criticam a administração e o partido no poder.
A censura à mídia turca e as ações do RTÜK são indicativos de um cenário onde a liberdade de imprensa enfrenta desafios constantes, afetando diretamente a pluralidade de opiniões e a qualidade do debate público no país.
*Com informações da Agência EFE
