A tarifa de 50% de Trump sobre produtos brasileiros provocou um terremoto político em Brasília. Ironia cruel: fortaleceu o discurso de “soberania nacional” de Lula. A campanha digital de Sidônio Palmeira transformou o atrito em slogan: “Lula quer taxar os super-ricos; Bolsonaro, quer taxar o Brasil”.
O Planalto escarnece do ex-presidente, aliado de Trump. Eduardo Bolsonaro, em peregrinação por Washington, denuncia “perseguição” do STF ao pai e aos condenados do 8 de janeiro. A retaliação americana, porém, atingiu em cheio setores alinhados aos bolsonaristas: agro, celulose, aço. A narrativa de vitimização custou caro demais.
Lula surge ironicamente como escudo do país; Bolsonaro, como traidor da pátria em troca de apoio irrestrito à anistia, sem medir as consequências, é como um sequestrador que só libertará a vítima se entregarem aquilo que é exigido. Mas há geopolítica por trás do teatro: a tarifa é parte da guerra dos EUA contra os BRICS e sua ofensiva para reduzir o dólar nas trocas comerciais. O Brasil, principal economia do bloco, virou alvo estratégico e bode expiatório.
A jogada de Lula tem método: simplificou o complexo embate em um dilema moral (“impostos sobre fortunas vs. taxas que geram desemprego”). Explorou o nacionalismo como valor sagrado para o eleitor. Para um governo que vinha acumulando derrotas e gerindo mau as crises domésticas, a luta contra o “imperialismo americano” caiu como uma luva. Contudo, o risco é alto. A retórica de “soberania” esvaziar-se-á sem respostas concretas: como proteger agro e indústria? A postura belicista de retaliação e reciprocidade preocupa os setores atingidos.
Em 2026, a tarifa será arma eleitoral. De um lado, Lula mobiliza o orgulho nacional contra o “compadrio” bolsonarista. De outro, a oposição culpa o STF, e o próprio governo Lula pela punição americana. O eleitor decidirá se a sinfonia patriótica de Lula supera a resistência bolsonarista – agora ferida de morte pelo aliado externo.
