A Stellantis, uma das maiores montadoras em operação no Brasil, está no centro de uma mobilização inédita contra uma medida prestes a ser adotada pelo governo Lula e que pode transformar profundamente o setor automotivo nacional. Junto com Volkswagen, Toyota e General Motors, a empresa enviou uma carta dura ao presidente da República no dia 15 de junho de 2025, alertando que a política planejada para favorecer montadoras chinesas poderá provocar demissões em massa, queda de investimentos e o colapso de parte da indústria nacional.
A crítica se concentra na iminente regulamentação do sistema SKD (Semi Knocked Down), que permite a importação quase completa de veículos montados no exterior — principalmente da China —, com pouquíssimo uso de fornecedores brasileiros e geração mínima de empregos locais. Segundo os executivos, essa estratégia representa um retrocesso à política industrial brasileira e ameaça diretamente o parque produtivo nacional, sobretudo em regiões como Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco, onde a Stellantis mantém plantas estratégicas.
Emanuele Cappellano, presidente da Stellantis, foi um dos signatários da carta, ao lado de Ciro Possobom (Volkswagen), Evandro Maggio (Toyota) e Santiago Chamorro (GM). Eles alertam que, caso o plano do governo se concretize, haverá cortes imediatos de pelo menos R$ 60 bilhões nos investimentos já anunciados, além da eliminação de 10.000 novas contratações e a demissão de até 5.000 trabalhadores atuais. O impacto pode se alastrar para toda a cadeia de fornecedores, com risco de extinção de até 50.000 postos de trabalho indiretos.
“A prática deletéria pode disseminar-se em toda a indústria, afetando diretamente a demanda de autopeças e de mão de obra”, diz o documento, que cobra do governo prioridade para a produção local e o veto a privilégios para veículos desmontados ou subsidiados no exterior. Segundo os executivos, o incentivo às montadoras chinesas vai contra toda a lógica de industrialização defendida pelo próprio governo em campanhas anteriores.
O documento também destaca a insatisfação com a falta de resposta de Lula e do ministro da Casa Civil, Rui Costa, coordenador da medida que deve beneficiar diretamente a chinesa BYD — empresa que tem um grande investimento em andamento na Bahia, reduto político do próprio Rui. A carta foi enviada também a Geraldo Alckmin, vice-presidente e titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
A Stellantis, responsável por marcas como Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën, tem sido uma das protagonistas no processo de eletrificação e modernização da indústria automotiva no país, com investimentos bilionários voltados à sustentabilidade e à geração de emprego qualificado. Com a possível aprovação do pacote pró-SKD, todo esse planejamento pode ser revisto.
Até o momento, nem Lula, nem Rui Costa ou Alckmin se manifestaram oficialmente sobre a carta. O silêncio, no entanto, está sendo interpretado nos bastidores como um sinal de que o governo deve seguir adiante com a medida, mesmo diante da pressão das gigantes do setor. A tensão entre Planalto e montadoras, especialmente a Stellantis, deve escalar nas próximas semanas — e o impacto sobre a economia brasileira pode ser amplo, duradouro e profundamente controverso.
*Com informações do jornal O Estado de S. Paulo e Poder360
