O recente acordo comercial firmado entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos, anunciado no último domingo (27), gerou forte repercussão e críticas contundentes entre líderes europeus. O pacto prevê um aumento dos investimentos europeus em território norte-americano, mas estabelece uma tarifa de 15% sobre produtos da UE exportados para os EUA — medida que atingirá em cheio setores estratégicos como automóveis, vinhos e artigos de luxo.
O descontentamento veio principalmente do governo francês, que classificou o acordo como desequilibrado e prejudicial. Para a França, o bloco europeu cedeu politicamente diante das pressões do presidente norte-americano, Donald Trump. O primeiro-ministro François Bayrou chegou a escrever em suas redes sociais que se tratava de “um dia sombrio” para a aliança transatlântica. Segundo ele, a Europa, ao aceitar as condições impostas por Washington, “se submeteu” aos interesses americanos.
O presidente francês, Emmanuel Macron, que sempre demonstrou resistência às ameaças tarifárias de Trump, teria defendido uma postura mais firme por parte da UE, incluindo a possibilidade de retaliar com medidas similares. O ministro francês para assuntos europeus, Benjamin Haddad, foi ainda mais incisivo, classificando a negociação conduzida pelos EUA como “predatória” e acusando Washington de abandonar os princípios do livre-comércio em favor da coerção econômica.
O mal-estar também se estendeu a outros países do bloco. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, afirmou que Trump “engoliu” a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e descreveu o resultado como “pior” do que o acordo entre EUA e Reino Unido. Já o premiê da Espanha, Pedro Sánchez, demonstrou apoio moderado ao pacto, mas destacou a necessidade urgente de diversificação comercial, citando o Mercosul como alternativa viável.
A associação industrial alemã VDMA também se manifestou, pedindo que o acordo não seja tratado como uma nova norma e exigindo que a UE reforce sua competitividade, independência econômica e capacidade de firmar novos acordos globais.
Na Itália, as reações foram divididas. Enquanto a primeira-ministra Giorgia Meloni considerou o acordo “positivo” por evitar uma escalada tarifária com consequências imprevisíveis, o maior sindicato do país, a CGIL, descreveu o desfecho como uma “rendição incondicional” da Europa, com potencial para provocar uma “tempestade perfeita” e colapsar economias já vulneráveis do continente.
Apesar das divergências internas, o acordo evidencia a crescente tensão entre os princípios tradicionais do multilateralismo europeu e a política comercial mais agressiva adotada por Washington sob Donald Trump. Para muitos líderes europeus, o pacto não apenas enfraquece a posição política da UE nas mesas de negociação globais, como também impõe um desafio urgente: redefinir suas prioridades econômicas em um cenário internacional cada vez mais competitivo e imprevisível.
*Com informações da AE e EFE
