Em 6 de agosto de 2025, uma ordem executiva dos Estados Unidos elevou a sobretaxa sobre várias importações brasileiras a 50%, medida que coloca Pernambuco entre os estados mais expostos do Nordeste. A Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe) estima perda de até US$ 205 milhões nas vendas ao mercado americano — choque que atinge municípios da Mata Norte, como Lagoa do Itaenga e Camutanga, e as cadeias do açúcar e do etanol.
O impacto é imediato: contratos adiados ou cancelados reduzem renda, geram demissões e tensionam cidades cuja economia depende dessas cadeias. “A cota criava ainda uma demanda segura, o que não existe mais. Podemos performar, mas passa a ser uma exportação menos quantitativa”, diz Renato Cunha (NovaBio / Sindaçúcar-PE), sintetizando a perda de previsibilidade que fragiliza fornecedores locais, em entrevista ao Valor.
Há também uma dimensão geopolítica e ideológica. Analistas relacionam a medida ao esforço americano de conter o protagonismo do Brasil em fóruns como os BRICS e de preservar a centralidade do dólar. Observadores notam afinidades político-ideológicas entre Donald Trump e Bolsonaro e a intensa exposição judicial que ambos enfrentaram após seus mandatos, circunstância que muitos interpretam como elemento motivador das sanções impostas pelo governo americano. Mas isso é tema para um próximo artigo. Em todo caso, a retórica de ‘soberania’ evocada por instâncias do governo federal mobiliza apoio político, mas não paga salários nem garante empregos.
A resposta precisa ser prática e imediata, com quatro frentes prioritárias:
1) mitigação comercial – mapear importadores alternativos que tem algum tipo de proximidade com o presidente Trump ou seus aliados mais próximos, acionar câmaras bilaterais e buscar mercados na União Europeia, Ásia e América Latina;2) renegociação contratual – ativar cláusulas, rever prazos e propor termos transitórios que preservem cadeias de suprimento;3) proteção financeira – estruturar linhas emergenciais de crédito, seguro-exportação e antecipação de recebíveis com apoio público-privado;4) coordenação público-privada – criar um comitê regional (governo, prefeituras, indústria e sindicatos) para mapear empregos em risco e direcionar recursos.
Essa agenda abre uma janela política em ano eleitoral para gestão estadual. Com o prefeito do Recife, João Campos, posicionado como adversário de destaque, a governadora Raquel Lyra pode assumir protagonismo operacional – liderando missões comerciais, articulando com o Itamaraty e promovendo instrumentos de apoio logístico e financeiro, projetando-a para o cenário político internacional. Mais do que retórica, é preciso um roteiro com prazos responsáveis e fontes de financiamento emergencial. Se a diplomacia tradicional se mostra lenta diante de uma nova modalidade de pressão comercial, com as credencias do “método Trump”, a agilidade e a coordenação entre público e privado poderão decidir se a Mata Norte preserva sua base produtiva ou assiste ao desmonte de cadeias inteiras.
