Em meio à forte repercussão da operação policial que deixou mais de 120 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, governadores de direita se reuniram na noite desta quinta-feira (30) com o governador fluminense Cláudio Castro (PL), no Palácio Guanabara, para discutir o avanço da PEC da Segurança Pública. Ao final do encontro, o grupo foi unânime em rechaçar a proposta, defendendo que o texto representa uma interferência direta na autonomia dos estados.
Castro destacou que o principal ponto de discordância é justamente a retirada de poder dos governos estaduais sobre suas forças policiais. Para ele, cada unidade da federação possui realidades distintas, o que exige estratégias próprias no enfrentamento da criminalidade. “O Brasil é um país muito grande. Não dá para tratar o Rio Grande do Sul igual ao Rio de Janeiro, igual ao Acre, igual ao Amazonas e igual ao Mato Grosso”, afirmou o governador.
Apesar das críticas, Castro frisou que os gestores não estão fechados ao diálogo. “Não se trata de uma luta entre esquerda e direita. Estamos dispostos a conversar, a ouvir, a aprender”, disse, ao tentar afastar a ideia de que o embate seja puramente político.
Entre os governadores presentes estavam Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Jorginho Mello (PL-SC) e Eduardo Riedel (PP-MS), além da vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP). O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) participou de forma remota.
O governador goiano Ronaldo Caiado foi enfático ao afirmar que o “principal erro da PEC” é enfraquecer o papel dos governadores na condução da segurança pública. Segundo ele, o texto retira diretrizes fundamentais das mãos dos estados. Caiado disse ainda que já encaminhou sugestões de mudança ao relator da proposta, deputado Mendonça Filho (União Brasil-PE), entre elas o acesso dos governadores ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e a responsabilização do governo federal pelos crimes de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
Durante a reunião, um momento de emoção marcou o encontro: Celina Leão chorou ao comentar as cenas da operação no Rio e pediu o fim da “lacração da direita, da esquerda e do centro”, defendendo uma discussão mais humana e menos ideológica sobre segurança pública.
A reunião também teve como pauta a criação de uma cooperação interestadual para o enfrentamento do crime organizado. O encontro reforçou o apoio político dos governadores a Cláudio Castro, que tem sido criticado após a Operação Contenção, considerada a mais letal da história do país. Enquanto o governo fluminense confirma 121 mortos, a Defensoria Pública aponta 132 vítimas.
O gesto dos governadores consolida um bloco de resistência à PEC da Segurança e coloca o tema no centro da disputa entre o governo federal, que busca centralizar políticas de segurança, e os estados, que exigem manter sua autonomia diante da escalada da violência em várias regiões do país.
