A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, celebrada pelo governo como uma vitória social, ganhou um novo capítulo político nesta quarta-feira (26). Os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), decidiram não comparecer à cerimônia de sanção da medida no Palácio do Planalto, escancarando o mal-estar que vem crescendo entre o Executivo e o Congresso.
Mesmo ausente, Motta fez questão de enaltecer o projeto nas redes sociais. Em publicação na plataforma X, chamou de “vitória histórica” a isenção para quem ganha até R$ 5 mil e lembrou que a Câmara ainda ampliou o benefício, reduzindo a alíquota para salários de até R$ 7.350. “A aprovação foi unânime. Este é o resultado da união dos Poderes em favor do Brasil”, escreveu, apesar da tensão nos bastidores.
Essa tensão, aliás, se intensificou com a tramitação do PL Antifacção, fortemente defendido por Motta e duramente criticado por integrantes do governo. A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, classificou a proposta como uma “lambança legislativa”, irritando o presidente da Câmara. O clima azedou de vez quando Motta rompeu relações com o líder do PT na Casa, Lindbergh Farias (RJ), após o petista atacar a escolha do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) como relator do projeto e citar Motta em discursos inflamados.
No Senado, o desgaste seguiu outro caminho, mas com a mesma intensidade. Davi Alcolumbre ficou profundamente contrariado com a escolha de Lula para o Supremo Tribunal Federal. O presidente queria ver seu aliado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) indicado para a Corte, mas o Planalto optou por Jorge Messias, ministro da Advocacia-Geral da União. A decisão, tomada sem consulta prévia, foi lida como desrespeito direto a Alcolumbre.
Nos bastidores, o senador não escondeu a irritação: “Vou mostrar ao governo o que é não ter o presidente do Senado como aliado”, disparou, em conversa reservada logo após saber da decisão.
A ausência dos dois chefes do Legislativo na cerimônia que marcou um dos principais anúncios econômicos do governo Lula simboliza um momento de fragilidade na articulação política do Planalto. Enquanto a isenção do IR avança como conquista para milhões de brasileiros, a relação entre Executivo e Congresso dá sinais de que pode entrar em rota mais turbulenta nas próximas semanas.
