A Austrália amanheceu, nesta quarta-feira (10), vivendo uma transformação digital inédita no mundo: todos os menores de 16 anos estão oficialmente proibidos de acessar redes sociais. A medida, considerada uma das mais rigorosas já aplicadas por um país contra grandes empresas de tecnologia, mira plataformas como Instagram, TikTok, YouTube, Facebook, Snapchat e outras — que agora são obrigadas a excluir contas de usuários abaixo da idade permitida. O descumprimento pode gerar multas de até 49,5 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 180 milhões).
Em um pronunciamento firme, o primeiro-ministro Anthony Albanese declarou que a decisão marca um novo capítulo na relação entre país e tecnologia. “A Austrália está dizendo basta. Estamos retomando o controle”, afirmou. Segundo o governo, a medida é uma resposta urgente aos “algoritmos predatórios” que expõem crianças a violência, assédio e conteúdo sexual.
A mudança já afeta centenas de milhares de adolescentes, que perderam acesso a aplicativos que faziam parte do cotidiano. Para Bianca Navarro, de 10 anos, a contagem regressiva para retornar ao YouTube parece interminável. “Vai ser triste… faltam seis anos”, lamentou.
Enquanto muitos pais celebram o que consideram um alívio, outros carregam histórias dolorosas. Mia Bannister, por exemplo, culpa as redes sociais pelo suicídio do filho Ollie, vítima de bullying on-line. “Estou exausta de ver os gigantes da tecnologia fugirem da responsabilidade”, disse.
Apesar do apoio de parte da população, a decisão divide opiniões no mundo. Jovens de outros países já comentam a medida com espanto e curiosidade. “Os estudantes hoje estão muito distraídos”, disse Mitchelle Okinedo, de 15 anos, na Nigéria. Já o mexicano Santiago Ramírez, de 16, acredita que redes sociais são cruciais para a expressão juvenil.
As big techs, por sua vez, contestam a eficácia e até a segurança da medida. A Meta afirmou que a nova lei pode empurrar os jovens para plataformas menos regulamentadas, aumentando os riscos. Algumas empresas já consideram contestar judicialmente a decisão, e o Reddit pode ser o primeiro a recorrer ao Supremo australiano.
O governo reconhece que o caminho não será simples. A checagem de idade ficará nas mãos das próprias plataformas, algumas das quais devem recorrer à Inteligência Artificial para estimar a idade dos usuários — enquanto outras exigirão documentos oficiais.
A lista de apps proibidos também continua em revisão. Plataformas populares entre crianças, como Roblox e WhatsApp, por enquanto seguem liberadas.
Mesmo com falhas previstas, a Austrália acredita que o movimento pode inspirar outras nações. Nova Zelândia e Malásia já estudam medidas semelhantes. Para o governo, mesmo um primeiro passo imperfeito é melhor do que permanecer inerte diante do impacto das redes sociais na formação de crianças e adolescentes.
