O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, afirmou nesta terça-feira (9) que enviará “em um futuro próximo” aos Estados Unidos a versão revisada de seu plano para pôr fim à guerra desencadeada pela invasão russa em 2022. A atualização ocorre em meio à crescente pressão do presidente americano, Donald Trump, que insiste para que Kiev aceite um acordo moldado por Washington — proposta amplamente criticada por favorecer a Rússia na versão inicial.
Após uma série de encontros com líderes europeus em Londres, Bruxelas e Roma, Zelensky afirmou no X que os elementos “ucranianos e europeus” do plano “estão agora mais desenvolvidos” e prontos para serem apresentados ao governo americano. Na segunda-feira, o presidente havia dito que pretendia enviar o documento já nesta terça, mas garantiu que a entrega ocorrerá nos próximos dias.
A tensão entre Kiev e Washington aumentou após Trump acusar Zelensky de não ter lido o plano americano e até sugerir que o governo ucraniano estaria “usando a guerra” para adiar eleições — uma afirmação que ignora a lei marcial em vigor desde o início da invasão. “Falam de democracia, mas chega um ponto em que não é mais democracia”, disse o republicano em entrevista ao Politico.
Diplomacia intensa na Europa
Nesta semana, Zelensky buscou reforçar apoio entre os aliados. Em Londres e Bruxelas, discutiu ajustes no plano de paz. Em Roma, encontrou-se com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e com o papa Leão XIV, que o recebeu em Castel Gandolfo. Em comunicado, o Vaticano afirmou que o pontífice reiterou seu desejo de uma “paz justa e duradoura” e destacou a importância de manter o diálogo diplomático.
Divergências centrais
O documento proposto por Washington previa que a Ucrânia abrisse mão de territórios ainda não ocupados pela Rússia, em troca de garantias de segurança, mas ignorava a aspiração de Kiev de ingressar na Otan. Tanto a Ucrânia quanto seus aliados europeus consideraram o texto original demasiadamente favorável ao Kremlin.
Zelensky informou que o plano, que inicialmente tinha 28 pontos, agora possui 20 após reuniões recentes com representantes americanos. Ainda assim, questões territoriais e garantias de segurança seguem como os principais entraves.
“Consideramos ceder territórios? Não temos nenhum direito legal para isso pela legislação ucraniana, pela Constituição e pelo direito internacional. E também não temos nenhum direito moral”, afirmou.
O presidente insistiu que o ponto essencial é saber “o que nossos parceiros estão dispostos a fazer caso aconteça uma nova agressão da Rússia”. Segundo ele, até agora não há resposta clara para essa questão.
Trump critica Europa e endurece tom
Desde que voltou à Casa Branca em janeiro, Trump oscilou entre críticas e gestos pontuais de pressão contra Moscou — incluindo sanções a petrolíferas russas. No entanto, voltou a responsabilizar Zelensky e Putin pela dificuldade em avançar nas negociações: “Eles realmente se odeiam”, afirmou ao Politico, sugerindo que essa animosidade impede qualquer acordo.
O presidente americano também voltou suas críticas à Europa, acusando aliados de “falar muito e produzir pouco” no apoio militar à Ucrânia.
Na Itália, Giorgia Meloni mantém firme apoio a Kiev desde 2022, apesar das resistências internas lideradas por Matteo Salvini. Roma forneceu armas, mas descartou enviar tropas, como proposto por Reino Unido e França. A autorização formal para assistência militar expira em 31 de dezembro, e o governo ainda avalia se renovará o compromisso — decisão que pode ser influenciada pelos debates diplomáticos em andamento.
Enquanto isso, a guerra segue sem previsão clara de desfecho, e o novo plano ucraniano pode se revelar decisivo para definir os próximos passos de um conflito que já transformou o cenário geopolítico global.
