O ex-presidente do Panamá Ricardo Martinelli começa a ser julgado nesta segunda-feira (12) em um processo que reacende um dos capítulos mais sensíveis do escândalo de corrupção envolvendo a construtora brasileira Odebrecht na América Latina. Exilado atualmente na Colômbia, Martinelli responde à Justiça panamenha, junto com cerca de outras vinte pessoas, por suposta lavagem de dinheiro relacionada a propinas pagas durante seu governo, entre 2009 e 2014.
O caso tem como pano de fundo a admissão de culpa feita pela Odebrecht em 2016, em um tribunal dos Estados Unidos, quando a empresa reconheceu ter distribuído mais de 788 milhões de dólares em subornos para garantir contratos públicos em diversos países da região. No Panamá, a construtora assumiu o pagamento de cerca de 59 milhões de dólares em propinas para assegurar obras estratégicas, como a construção do metrô da capital, uma rodovia costeira e a ampliação do aeroporto internacional, todas executadas durante a gestão de Martinelli.
A promotoria panamenha sustenta que há provas de que recursos ilícitos circularam por meio de ordens de pagamento que, embora não tenham sido depositadas diretamente nas contas do ex-presidente, teriam como beneficiário final o próprio Martinelli, que, segundo a acusação, tinha pleno conhecimento da origem ilegal do dinheiro. O Ministério Público afirma estar preparado para buscar a condenação dos réus por lavagem de dinheiro. Caso seja condenado, Martinelli pode enfrentar uma pena de até 12 anos de prisão.
O ex-presidente acompanha o julgamento de forma virtual. Em 2025, ele solicitou asilo político na Colômbia para evitar a prisão decorrente de outra condenação por lavagem de dinheiro, que resultou em uma pena de quase 11 anos. Sua defesa classifica o processo atual como politicamente motivado e afirma que garantias legais foram violadas ao longo da investigação, argumento que promete ser central durante o julgamento.
A audiência ocorre em um tribunal ligado à Suprema Corte de Justiça, na Cidade do Panamá, e só agora foi iniciada após cinco adiamentos motivados por disputas processuais. Além de Martinelli, o caso envolve figuras de peso da política panamenha. O ex-presidente Juan Carlos Varela e dois filhos de Martinelli também são investigados, mas serão julgados separadamente pela Suprema Corte, em data ainda indefinida, por possuírem imunidade parlamentar. Tanto Martinelli quanto Varela estão proibidos de entrar nos Estados Unidos, país que os acusa formalmente de corrupção.
O processo no Panamá integra um mosaico maior de consequências políticas e judiciais deixadas pelo escândalo Odebrecht na região. No Peru, os ex-presidentes Alejandro Toledo e Ollanta Humala cumprem penas de 20 e 15 anos de prisão, respectivamente, enquanto Alan García tirou a própria vida em meio às investigações. No Equador, o ex-presidente Rafael Correa foi condenado à revelia a oito anos de prisão e vive atualmente na Bélgica.
O julgamento de Martinelli representa mais um desdobramento de um caso que atravessou fronteiras, derrubou líderes e expôs os mecanismos de corrupção em grandes obras públicas na América Latina, mantendo viva a expectativa por responsabilização judicial mesmo anos após as revelações iniciais.
