O cinema brasileiro viveu uma noite histórica no Globo de Ouro 2026, realizado na madrugada desta segunda-feira (12). O país foi um dos grandes destaques da premiação com o reconhecimento de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, que conquistou dois dos prêmios mais relevantes da cerimônia: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura. As vitórias reafirmam a força da produção nacional no cenário internacional e colocam o Brasil novamente no centro das atenções do audiovisual mundial.
A conquista de Melhor Filme em Língua Não Inglesa tem peso simbólico e histórico. O feito ocorre 27 anos após a última vitória brasileira na categoria, alcançada por Central do Brasil, e coloca O Agente Secreto à frente de produções de diferentes países, consideradas fortes concorrentes na disputa. O longa também esteve entre os indicados a Melhor Filme de Drama, prêmio que ficou com Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, consolidando ainda mais sua relevância na temporada de premiações.
Ao receber o troféu, Kleber Mendonça Filho celebrou o reconhecimento e destacou o impacto cultural da obra. Para o diretor, o sucesso do filme demonstra a capacidade do cinema brasileiro de provocar debates e reflexões sobre a própria história do país. Em seu discurso, ele também fez um apelo direto às novas gerações de realizadores, incentivando jovens cineastas a contarem histórias brasileiras, com seus próprios recursos e olhares, reforçando que narrativas locais têm alcance e ressonância global.
O outro grande momento da noite veio com a vitória de Wagner Moura, premiado como Melhor Ator em Filme de Drama por sua atuação como Marcelo, um professor e pesquisador universitário perseguido politicamente durante a ditadura militar. O ator superou nomes de destaque do cinema internacional e, emocionado, dividiu o reconhecimento com os colegas indicados, a quem chamou de extraordinários. Moura agradeceu à mãe, à equipe do filme e ressaltou a parceria com Kleber Mendonça Filho, definido por ele como um irmão e um gênio criativo. Em seu discurso, o ator destacou que O Agente Secreto aborda temas como memória, esquecimento e traumas geracionais, ressaltando que valores também podem ser transmitidos ao longo do tempo.
Ambientado no Recife da década de 1970, o filme constrói sua narrativa a partir de uma sátira política com humor e sensibilidade. A história acompanha o retorno de Marcelo à cidade natal durante o Carnaval de 1977, enquanto tenta reencontrar o filho e escapar de uma perseguição política. O cuidado com a ambientação é um dos pontos altos da produção, que utilizou locações reais para recriar o período, incluindo o parque gráfico da Folha de Pernambuco, onde uma antiga máquina rotativa ajudou a compor o cenário de um jornal da época.
Com as vitórias no Globo de Ouro — tradicionalmente visto como um termômetro para o Oscar —, O Agente Secreto se consolida como uma das principais apostas brasileiras na corrida pela maior premiação do cinema mundial. O longa já ultrapassou a marca de 1 milhão de espectadores, tornando-se a maior bilheteria nacional do ano, além de alcançar um feito inédito ao conquistar projeção internacional expressiva fora do eixo Sul-Sudeste. Mais do que prêmios, o filme simboliza um momento de afirmação do cinema brasileiro, que volta a dialogar com o mundo a partir de suas próprias histórias.
