Começou nesta terça-feira (13), em Paris, o julgamento do recurso apresentado por Marine Le Pen contra a condenação por desvio de recursos públicos que ameaça inviabilizar sua candidatura à Presidência da França em 2027. A líder da extrema direita tenta reverter a decisão de primeira instância que a condenou à inabilitação imediata para cargos públicos, além de pena de prisão e multa, em um processo que provocou forte impacto no cenário político francês.
Aos 57 anos, Le Pen chegou ao Palácio de Justiça, no centro histórico da capital francesa, sem falar com a imprensa, no primeiro dia de um julgamento que deve se estender até 11 de fevereiro. Na véspera, porém, afirmou que sua estratégia de defesa será “dizer a verdade” e tentar convencer os magistrados de sua inocência, demonstrando expectativa de ser ouvida de forma mais atenta do que no julgamento anterior.
A apelação ocorre em um momento sensível, já que pesquisas recentes indicam que Le Pen ou seu aliado e herdeiro político, Jordan Bardella, lideram as intenções de voto para suceder o presidente Emmanuel Macron, impedido de disputar um novo mandato. Em março, um tribunal de primeira instância condenou a política a dois anos de prisão, multa de 100 mil euros e, principalmente, a cinco anos de inelegibilidade com efeito imediato, decisão que a retirou do jogo eleitoral e foi classificada por aliados internacionais, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como uma “caça às bruxas”.
Além de Le Pen, o processo envolve outras 23 pessoas, entre ex-eurodeputados, assessores e funcionários do antigo Frente Nacional — hoje Reagrupamento Nacional —, bem como o próprio partido. A Justiça considerou que, entre 2004 e 2016, foi montado um esquema para que assessores pagos pelo Parlamento Europeu atuassem, na prática, em benefício do partido, o que é proibido pelas regras da instituição. Apesar disso, os juízes não apontaram enriquecimento pessoal e determinaram a devolução de 3,2 milhões de euros aos cofres europeus.
Os advogados da líder da extrema direita devem adotar uma linha de defesa que não nega os fatos, mas sustenta a ausência de intenção criminosa. O objetivo é, ao menos, tentar afastar ou suspender a pena de inelegibilidade, permitindo que Le Pen dispute as eleições presidenciais de 2027. Caso seja novamente condenada, ainda caberá recurso ao Tribunal de Cassação, que sinalizou a intenção de julgar o caso antes do pleito, se possível.
Enquanto isso, o debate sobre o impacto político da decisão judicial se intensifica. Jordan Bardella afirmou que seria “muito preocupante para a democracia” impedir que os franceses escolham uma candidata que já chegou duas vezes ao segundo turno presidencial e que hoje figura entre as favoritas. Ainda assim, pesquisas recentes indicam um enfraquecimento da imagem de Le Pen desde a condenação, abrindo espaço para que Bardella, de 30 anos, ganhe força como possível cabeça de chapa da extrema direita.
O desfecho do julgamento não definirá apenas o futuro judicial de Marine Le Pen, mas pode redesenhar o equilíbrio de forças na política francesa às vésperas de uma eleição presidencial considerada decisiva para o país.
