O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de um novo inquérito para apurar um possível vazamento de dados fiscais de ministros da Corte, envolvendo informações que teriam sido acessadas por órgãos como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a Receita Federal. A investigação, que tramita sob sigilo e será relatada pelo próprio Moraes, foi instaurada sem solicitação da Procuradoria-Geral da República ou da Polícia Federal, um procedimento incomum, embora previsto no Regimento Interno do Supremo. A existência do inquérito foi revelada pelo portal Poder360 e confirmada pela Agência Brasil.
A apuração surge após reportagens apontarem vínculos entre familiares de ministros do STF e o Banco Master, instituição que está no centro de um escândalo de fraude financeira e cuja investigação tramita na própria Corte, sob relatoria do ministro Dias Toffoli. Entre as informações divulgadas pela imprensa está a negociação envolvendo irmãos e primos de Toffoli, que venderam participação em um resort no Paraná a um fundo ligado a Fabiano Zettel, cunhado e sócio de Daniel Vorcaro, controlador do banco. Ambos já foram alvo de mandados de busca e de prisão temporária no inquérito conduzido por Toffoli.
As revelações ampliaram o desconforto no tribunal após o jornal O Globo noticiar, em dezembro, que um escritório de advocacia administrado por Viviane Barci, esposa de Alexandre de Moraes, firmou contrato de R$ 129 milhões para representar o Banco Master antes de o escândalo financeiro vir a público. Diante desse contexto, Moraes passou a considerar a hipótese de que dados sensíveis tenham sido indevidamente acessados e vazados a partir de estruturas estatais, como o Coaf ou a Receita Federal.
A decisão de abrir o inquérito de ofício gerou críticas de integrantes do Ministério Público, além de juristas e especialistas, que questionam a concentração de atribuições. Ainda assim, a medida encontra respaldo no Artigo 43 do Regimento Interno do STF, que autoriza a instauração de investigação quando há indícios de infração penal envolvendo autoridades sujeitas à jurisdição da Corte. No momento, Moraes exerce interinamente a presidência do Supremo, em razão do recesso do Judiciário e da ausência do presidente Edson Fachin.
O caso do Banco Master e seus desdobramentos têm provocado reflexões internas no tribunal. O ministro Edson Fachin, ao encerrar o ano judiciário de 2025, defendeu a criação de um código de conduta para ministros de tribunais superiores, incluindo o STF. A proposta foi colocada como uma das prioridades da Corte para este ano, em meio ao esforço de preservar a credibilidade institucional diante de episódios que expõem a relação entre magistrados, familiares e grandes interesses econômicos.
