Em meio às turbulências do sistema financeiro e já sob o calendário político de 2026, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta segunda-feira (19) que apresentou ao governo uma proposta para ampliar o perímetro regulatório do Banco Central, transferindo para a autarquia a regulação e a fiscalização dos fundos de investimento, hoje atribuídas à Comissão de Valores Mobiliários. A iniciativa surge na esteira do caso envolvendo o Banco Master, alvo de investigações por fraudes com uso de fundos, episódio que acelerou o debate sobre falhas na supervisão do mercado.
Em entrevista ao portal UOL, Haddad afirmou que a fronteira entre fundos, sistema financeiro e impactos fiscais se tornou tênue demais para permanecer fragmentada entre órgãos diferentes. Para o ministro, há atribuições que deveriam estar sob o comando do Banco Central e que, na prática, ficaram equivocadamente com a CVM. O tema ganhou força após a Polícia Federal deflagrar a segunda fase da operação Compliance Zero, que investigou irregularidades cometidas por meio de fundos ligados à Reag Investimentos. Um dia depois da operação, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, aprofundando o clima de alerta no setor.
A discussão sobre o fortalecimento do papel do BC já vinha sendo gestada desde o ano passado, quando a autarquia demonstrou interesse em usar a PEC 65 — que trata de sua autonomia orçamentária e financeira — como base para ampliar sua atuação regulatória sobre o mercado de capitais. Segundo Haddad, o debate agora envolve diretamente o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, além de ministérios estratégicos e da Advocacia-Geral da União.
No mesmo momento em que conduz mudanças estruturais na política econômica, Haddad também deixou claro que 2026 pesa em suas decisões pessoais. O ministro afirmou que definirá seu papel nas eleições somente após uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um diálogo que descreveu como franco e pessoal. Embora haja pressão para que dispute o Senado ou o governo de São Paulo, ele voltou a demonstrar resistência e lembrou que já recusou convites eleitorais feitos por Lula em outras ocasiões.
Haddad indicou ainda a intenção de deixar o Ministério da Fazenda no início do ano, antes do prazo legal de desincompatibilização, para permitir uma transição organizada. Ele avalia como essencial que o sucessor assuma logo na largada do ano, garantindo continuidade na execução orçamentária e financeira. Nos bastidores, o nome mais cotado para a sucessão segue sendo o do secretário-executivo Dario Durigan.
Durante a entrevista, o ministro também comentou o apelido de “Taxad”, usado por adversários políticos, e disse encará-lo com orgulho. Haddad afirmou que vê como um marco de sua gestão a taxação de offshores, paraísos fiscais e dividendos, defendendo que as medidas corrigiram distorções históricas ao fazer com que os mais ricos passassem a contribuir. Para ele, em um país desigual como o Brasil, justiça fiscal é parte central do debate econômico — especialmente em um ano que já começa sob o peso das eleições e de casos como o do Banco Master.
