O presidente da França, Emmanuel Macron, fez nesta terça-feira (20) um apelo direto aos parceiros da União Europeia para que não hesitem em usar o mecanismo anticoerção do bloco diante de pressões externas e ameaças comerciais. Em discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, o líder francês defendeu firmeza, mas também serenidade, ao afirmar que o mundo caminha para um cenário cada vez mais instável, marcado pelo ressurgimento de ambições imperialistas.
Segundo Macron, a Europa dispõe de instrumentos “muito poderosos” e precisa utilizá-los sempre que não for respeitada ou quando as regras do jogo forem violadas. O mecanismo anticoerção, apelidado de “bazuca comercial” e criado no fim de 2023, ainda não foi acionado, mas, na avaliação do presidente francês, não deve permanecer apenas como uma ameaça teórica. Para ele, aceitar passivamente imposições externas significaria legitimar a lógica da força e abrir espaço para práticas de cunho neocolonial.
As declarações ocorrem em meio a novas tensões com os Estados Unidos. O presidente americano, Donald Trump, ameaçou impor tarifas adicionais de 10% a países europeus que participarem de manobras militares na Groenlândia, além de sinalizar uma sobretaxa de até 200% sobre vinhos e champanhes franceses. A retaliação estaria ligada à recusa de Macron em integrar a Junta de Paz para Gaza proposta por Washington. Em Davos, o presidente francês classificou essas ameaças como inaceitáveis, sobretudo quando usadas para obter vantagens territoriais, e ressaltou que a atuação europeia na Groenlândia tem como objetivo apoiar a Dinamarca, aliada histórica, e não provocar confrontos.
No mesmo evento, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também advertiu que a imposição de novas tarifas seria um erro grave entre aliados de longa data, lembrando o recente acordo que estabelece uma tarifa geral de 15% para produtos europeus nos Estados Unidos. Diante de uma plateia formada por líderes políticos e econômicos, Macron pediu responsabilidade coletiva para enfrentar o que chamou de “atos brutais” e reafirmou a necessidade de fortalecer o multilateralismo.
O presidente francês defendeu ainda que a União Europeia avance em soberania e autonomia estratégica, sem abrir mão da cooperação internacional em espaços como a ONU e o G7, cuja presidência rotativa está atualmente sob comando da França. Macron revelou que convidou Trump para discutir a crise envolvendo a Groenlândia durante a próxima cúpula do G7, em Paris, mas ainda não obteve resposta.
Ao encerrar sua fala, Macron destacou o que considera os pilares da identidade europeia. Para ele, a força do continente está na defesa do Estado de direito, da previsibilidade institucional e da ciência, em oposição à brutalidade e às teorias conspiratórias. Em um mundo que, segundo alertou, flerta cada vez mais com a lei do mais forte, o presidente francês afirmou que a Europa precisa escolher entre a submissão e a afirmação de seus valores.
