O Relógio do Juízo Final atingiu o nível mais alarmante desde sua criação, marcando 85 segundos para a meia-noite, segundo anúncio feito nesta terça-feira (27) pelo Boletim de Cientistas Atômicos. O índice simboliza o quão próxima a humanidade estaria de um colapso global e reflete, de acordo com o grupo, a soma de riscos nucleares, climáticos e tecnológicos que se intensificaram nos últimos anos.
Criado em 1947 por cientistas da Universidade de Chicago, com participação de nomes históricos como Albert Einstein e J. Robert Oppenheimer, o relógio surgiu como uma metáfora para o risco de destruição total do planeta, inicialmente associado ao temor de um holocausto nuclear no pós-Segunda Guerra Mundial. Ao longo das décadas, o indicador passou a incorporar novas ameaças, acompanhando as transformações geopolíticas, ambientais e tecnológicas do mundo.
De acordo com o comunicado mais recente, a escalada de conflitos internacionais teve peso decisivo para o avanço dos ponteiros. Tensões envolvendo Paquistão e Índia, a guerra entre Rússia e Ucrânia e os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã ampliaram o risco de confrontos com potencial nuclear. Para os cientistas, o cenário atual demonstra fragilidade nos mecanismos diplomáticos e um aumento perigoso da instabilidade global.
A crise climática também aparece como um fator central. O boletim aponta que os níveis de dióxido de carbono na atmosfera chegaram a 150% do patamar pré-industrial, um recorde histórico. O aquecimento global segue em ritmo acelerado, com 2024 sendo registrado como o ano mais quente dos últimos 175 anos, tendência que se manteve em 2025. Na Europa, pelo terceiro ano em um intervalo de quatro, ondas de calor extremo resultaram em mais de 60 mil mortes, reforçando o impacto direto das mudanças climáticas sobre a vida humana.
O documento faz críticas diretas à atuação internacional no combate ao problema. As três últimas conferências da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o clima são apontadas como insuficientes por não priorizarem de forma clara o fim do uso de combustíveis fósseis nem estabelecerem mecanismos mais rigorosos de monitoramento das emissões de carbono.
O governo dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, também é alvo de críticas. Segundo o grupo, a administração americana teria adotado uma postura hostil em relação às energias renováveis e a políticas ambientais, além de enfraquecer iniciativas voltadas ao enfrentamento das mudanças climáticas, o que agrava ainda mais o cenário global.
Outro ponto de preocupação destacado é o avanço da inteligência artificial. Os cientistas alertam que a tecnologia pode ser utilizada para o desenvolvimento de patógenos contra os quais o corpo humano não teria defesas, especialmente em um contexto de enfraquecimento das normas internacionais sobre armas biológicas. O boletim ressalta ainda que Estados Unidos, Rússia e China já incorporaram sistemas de IA em suas estruturas de defesa, apesar dos riscos envolvidos.
Além das ameaças diretas, o grupo avalia que a expansão acelerada da inteligência artificial pode intensificar o caos global ao fomentar campanhas de desinformação, ampliar discursos ultranacionalistas e aprofundar a disfunção do ecossistema político e social em diversas regiões do mundo.
Ao final do relatório, o Boletim de Cientistas Atômicos apresenta recomendações urgentes. Entre elas, a retomada das negociações entre Estados Unidos e Rússia para a redução de arsenais nucleares, a inclusão da China em debates sobre limites ao uso da inteligência artificial e um apelo para que o Congresso americano se oponha às ações do governo Trump contra a transição energética. Para os especialistas, recuar os ponteiros do relógio ainda é possível, mas exige decisões políticas imediatas e cooperação internacional em escala inédita.
