A Câmara Municipal do Recife rejeitou, na manhã desta terça-feira (3), a admissibilidade do pedido de impeachment contra o prefeito João Campos (PSB), encerrando o processo ainda em sua fase inicial. Em uma sessão marcada por galerias lotadas, clima de tensão e sucessivas interrupções, o plenário decidiu pelo arquivamento da denúncia com 25 votos contrários, nove favoráveis e uma abstenção.
Desde as primeiras horas do dia, apoiadores do prefeito formaram filas em frente à Casa de José Mariano para acompanhar a votação. Diante da expectativa e do histórico de embates em sessões anteriores, o presidente da Câmara, Romerinho Jatobá (PSB), reforçou o esquema de segurança, com controle de acesso às galerias e a presença da Guarda Municipal, Polícia Militar e equipes de socorro.
Na véspera da votação, Romerinho já havia sinalizado que não acreditava no avanço do pedido. Segundo ele, apesar de a análise fazer parte do rito institucional, a denúncia não apresentava elementos suficientes para prosperar, classificando a iniciativa como uma ação de impacto político da oposição. Ainda assim, o tema dominou os debates e mobilizou parlamentares e militantes.
A denúncia teve como base um suposto favorecimento ao filho de um juiz em concurso público para a Procuradoria do Município, em detrimento de um candidato aprovado para a vaga destinada a Pessoa com Deficiência (PCD). O caso foi posteriormente resolvido nas esferas administrativa e judicial, com a nomeação e posse do candidato originalmente aprovado, mas a controvérsia seguiu sendo usada como fundamento para a acusação de crime de responsabilidade contra o prefeito.
Autor do pedido, o vereador Eduardo Moura (Novo) não participou da votação por impedimento regimental e foi substituído pelo suplente George Bastos (Novo), que tomou posse antes do início da discussão. Mesmo sem direito a voto, Eduardo acompanhou a sessão no plenário e utilizou o tempo destinado à defesa da denúncia, afirmando que o objetivo não era cassar o prefeito de imediato, mas permitir a abertura de uma investigação. Durante sua fala, citou colegas nominalmente e questionou se a situação seria justa, em meio a constantes manifestações das galerias.
O clima se acirrou com vaias, xingamentos e interrupções, levando o líder da oposição, Felipe Alecrim (Novo), a pedir o esvaziamento das galerias, solicitação negada pelo presidente da Casa. Líderes do governo e do PSB, Samuel Salazar (MDB) e Rinaldo Júnior (PSB), precisaram intervir diversas vezes pedindo silêncio para que a sessão prosseguisse.
Em defesa do prefeito, Samuel Salazar classificou a denúncia como frágil e sustentou que João Campos não poderia ser responsabilizado, já que as nomeações chegam prontas para assinatura do chefe do Executivo. Em tom duro, afirmou que a Câmara não era um “estúdio de televisão”, em resposta ao discurso da oposição. O embate ganhou novos contornos quando foi reproduzido um áudio atribuído a George Bastos com ofensas aos presentes nas galerias, o que gerou revolta entre o público e parlamentares.
Para que o pedido avançasse internamente, era necessária maioria simples favorável à admissibilidade. Com a rejeição, o processo foi arquivado automaticamente, sem a criação de comissão especial ou aprofundamento das investigações. Durante o momento da votação, os vereadores Agora é Rubem (PSB) e Flávia de Nadegi (PV), que recentemente se afastaram da base do prefeito ao se alinharem à governadora Raquel Lyra, deixaram o plenário.
O resultado consolidou a ampla maioria da base governista na Câmara e encerrou, ao menos por ora, a tentativa de impeachment contra João Campos, em um episódio que evidenciou a polarização política no Legislativo municipal e antecipou o tom dos embates que devem marcar o cenário político recifense nos próximos meses.
