Um eventual fim da escala de trabalho 6×1 no Brasil pode provocar efeitos profundos no mercado formal e na economia do país. De acordo com uma nota técnica elaborada pelo Centro de Liderança Pública (CLP), a mudança na jornada semanal teria potencial para eliminar mais de 600 mil empregos formais, além de reduzir de forma significativa a produção e o crescimento econômico, caso seja aprovada pelo Congresso Nacional. A deputada federal Erika Hilton (PSOL) é uma das principais defensoras da pauta.
A análise aponta que os setores mais vulneráveis à redução das horas trabalhadas seriam o comércio, a agropecuária e a construção civil. No comércio, a produtividade do trabalhador poderia cair 1,3%, acompanhada de uma retração de 1,6% no emprego formal, o que representa a extinção de cerca de 164 mil postos de trabalho. Já na agropecuária, a queda projetada é semelhante, com perda de produtividade de 1,3% e redução de 28,4 mil vagas formais. Na construção civil, o cenário também é negativo: a produtividade recuaria 1,3% e aproximadamente 45,7 mil empregos deixariam de existir.
Ao incluir outros segmentos da economia, o CLP estima que o impacto total ultrapassaria a marca de 600 mil empregos formais eliminados. Segundo o estudo, a redução da jornada poderia levar a uma diminuição de até 2% na produção do setor formal, resultado combinado da menor carga horária e da redução no número de trabalhadores empregados.
Os reflexos se estenderiam ao Produto Interno Bruto. A projeção indica uma queda de aproximadamente 0,7% no PIB, o equivalente a R$ 88 bilhões, evidenciando, na avaliação do CLP, impactos macroeconômicos relevantes e duradouros para o país.
O documento ressalta que, caso o fim da escala 6×1 não venha acompanhado de uma redução proporcional dos salários mensais, o custo da hora trabalhada aumentaria automaticamente. Para algumas empresas, esse aumento poderia ser compensado por reorganização interna, ganhos de eficiência ou adoção de novas tecnologias. Para outras, porém, o efeito seria mais severo, levando à compressão de margens de lucro, repasse de custos aos preços ou até mesmo à redução da escala de produção.
A nota técnica também recorre a experiências internacionais para embasar o alerta. Em Portugal, onde a jornada semanal foi reduzida de 44 para 40 horas, houve um aumento de 9,2% no salário por hora trabalhada. No entanto, o movimento foi acompanhado por uma queda de cerca de 1,7% no emprego e de 3,2% nas vendas, além de uma redução de 10,9% no total de horas trabalhadas no país.
Para o CLP, os dados reforçam a necessidade de cautela e amplo debate sobre mudanças na legislação trabalhista, sobretudo diante dos possíveis efeitos sobre o emprego, a produtividade e a sustentabilidade econômica no longo prazo.
