A ativista iraniana Narges Mohammadi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2023, foi condenada a mais sete anos e meio de prisão por um tribunal revolucionário, ampliando uma longa sequência de sentenças que a mantêm sob constante perseguição judicial desde 2021. A decisão, anunciada neste domingo (8) por seu advogado, Mostafa Nili, representa a décima condenação imposta à defensora dos direitos humanos.
Segundo a defesa, Mohammadi recebeu seis anos de prisão por acusações de “reunião e conluio”, um ano e meio por “propaganda contra o sistema” e, como pena adicional, dois anos de proibição de deixar o país. A informação foi repassada após um telefonema feito pela própria ativista, no primeiro contato que conseguiu estabelecer desde que foi detida há 59 dias.
De acordo com o advogado, Narges relatou que foi levada no sábado (7) à primeira vara do Tribunal Revolucionário de Mashhad, no nordeste do Irã, onde ocorreu a audiência que resultou na nova sentença. Ela também contou que, três dias antes, precisou ser transferida a um hospital em razão do agravamento de seu estado de saúde. A ligação foi interrompida no momento em que ela começava a relatar as circunstâncias de sua prisão.
A defesa afirma que, conforme a legislação iraniana, a ativista deverá ser encaminhada a uma prisão após a condenação, mas sustenta que há fundamentos legais para sua libertação. Diante das doenças que enfrenta, o advogado defende que seja concedida liberdade temporária mediante fiança, para que ela possa receber tratamento médico adequado.
Narges Mohammadi foi detida de forma violenta em meados de dezembro, durante uma cerimônia fúnebre de um advogado na cidade de Mashhad, ao lado de outros ativistas, conforme denunciou sua família. Há seis dias, ela iniciou uma greve de fome para protestar contra a detenção prolongada, marcada, segundo seus relatos, por isolamento absoluto e total interrupção de comunicação com o exterior.
A nova sentença ocorre em um contexto de forte repressão após os protestos que se espalharam pelo Irã entre dezembro e janeiro. As manifestações começaram em Teerã, motivadas pela desvalorização do rial, mas rapidamente ganharam caráter nacional, com pedidos pelo fim da República Islâmica. A resposta das autoridades foi marcada por violência. O governo iraniano reconhece a morte de 3.117 pessoas, atribuindo os confrontos a ações externas, enquanto a ONG HRANA, com sede nos Estados Unidos, estima 6.961 mortes e investiga ainda mais de 11 mil possíveis vítimas, além de cerca de 51 mil prisões.
Nesse cenário, diversos ativistas de direitos humanos também foram detidos, entre eles o roteirista Mehdi Mahmoudian, indicado ao Oscar, além de Vida Rabbani, Abdullah Momeni e Ghorban Behzadian-Nejad.
Mohammadi estava em liberdade condicional desde dezembro de 2024, quando foi solta por razões médicas. Pouco antes, denunciou que as autoridades iranianas haviam imposto uma proibição permanente para que deixasse o país, impedindo inclusive a emissão de passaporte para visitar os dois filhos, que vivem no exterior e que ela não vê há 11 anos. Ao longo da vida, a ativista já foi detida 13 vezes, condenada em nove ocasiões e presa novamente em 2021.
Mesmo sob risco constante, Narges Mohammadi continuou denunciando violações de direitos humanos no Irã, incluindo a aplicação da pena de morte e a violência contra mulheres que desafiam a obrigatoriedade do uso do véu islâmico. Foi essa trajetória que levou o Comitê Nobel norueguês a conceder-lhe, em 2023, o Prêmio Nobel da Paz, em reconhecimento à sua luta contra a opressão das mulheres e em defesa da liberdade e dos direitos fundamentais no país.