Um dos romances mais intensos da literatura inglesa acaba de ganhar uma releitura que já nasce cercada de debates. “Wuthering Heights”, nova adaptação do clássico de Emily Brontë dirigida por Emerald Fennell, chega aos cinemas brasileiros em 12 de fevereiro, mas muito antes da estreia oficial o filme já se tornou assunto nas redes sociais, na crítica especializada e entre leitores apaixonados pela obra original.
Conhecida por trabalhos provocativos como Promising Young Woman e Saltburn, Fennell decidiu não seguir o caminho tradicional. Ela assina o roteiro, a direção e a produção, deixando explícita sua marca autoral. O próprio título aparece entre aspas, um gesto simbólico que indica não se tratar de uma transposição literal do romance do século XIX, mas de uma interpretação pessoal, filtrada por uma estética contemporânea e por escolhas narrativas que assumem riscos.
No centro da história estão Catherine Earnshaw e Heathcliff, interpretados por Margot Robbie e Jacob Elordi. A escalação chamou atenção desde o anúncio. Parte dos leitores questionou a escolha de Elordi para viver Heathcliff, personagem cuja ambiguidade racial é um dos elementos mais discutidos do livro. Para muitos fãs, essa camada não foi plenamente contemplada na nova versão, o que alimentou debates sobre representatividade e fidelidade ao texto original.
Margot Robbie, por sua vez, revelou que inicialmente não estava destinada ao papel de Cathy. Envolvida apenas como produtora, decidiu mais tarde disputar a personagem — e acabou assumindo o protagonismo. A escolha reforça o peso da atriz não apenas diante das câmeras, mas também nos bastidores de uma produção que aposta em nomes fortes para sustentar sua proposta ousada.
Outra decisão que surpreendeu foi a trilha sonora. Em vez de apostar exclusivamente em composições orquestrais que evocassem o romantismo sombrio da Inglaterra rural, o filme incorpora músicas contemporâneas, incluindo faixas de Charli XCX. A mistura entre o drama gótico e o pop atual criou uma atmosfera que alguns consideram inovadora e outros, destoante demais do espírito da obra.
As primeiras avaliações refletem essa divisão. Com cerca de 70% de aprovação no Rotten Tomatoes, o longa alcançou um índice considerado sólido para uma adaptação tão arriscada. Críticos destacam principalmente o impacto visual: cenários que alternam entre interiores vibrantes quase surreais e a vastidão melancólica dos campos de Yorkshire, além de figurinos que remetem tanto à moda editorial quanto a uma estética gótica modernizada. Há quem descreva determinadas cenas como “pinturas vivas”, tamanha a composição estética.
Por outro lado, parte da crítica aponta que o apelo visual pode ter se sobreposto à profundidade emocional que marca o romance de Brontë. Alguns espectadores sentem falta da densidade psicológica e da atmosfera opressiva que tornam a história original tão perturbadora, argumentando que o filme opta por um tom mais estilizado e, em certos momentos, mais romântico do que trágico.
Nas redes sociais, a discussão é intensa. Comunidades literárias se dividem entre os que celebram a ousadia de atualizar um clássico e os que defendem uma abordagem mais fiel ao texto. A tensão entre tradição e modernidade, entre o gótico sombrio e a estética pop, tornou-se o verdadeiro centro do debate.
Independentemente do veredicto final, a nova versão de “O Morro dos Ventos Uivantes” já ultrapassou o status de simples adaptação cinematográfica. Transformou-se em um acontecimento cultural que coloca em pauta até que ponto um clássico pode — ou deve — ser reinventado para dialogar com o público de hoje.
