Às vésperas da reunião do G7, organizações internacionais voltaram a acender o alerta sobre um impacto frequentemente deixado em segundo plano nas discussões ambientais: a relação entre mudança climática e desigualdade de gênero. Para especialistas e representantes de ONGs, os efeitos da crise climática atingem as mulheres de forma desproporcional e podem aprofundar cenários de fome, pobreza extrema e violência em diversas partes do mundo.
A preocupação ganhou força diante de estudos recentes que mostram como eventos climáticos extremos têm agravado problemas sociais históricos. Segundo a organização CARE França, os impactos ambientais acabam ampliando vulnerabilidades já existentes. Em regiões afetadas por secas e perdas agrícolas, por exemplo, mulheres costumam ser as últimas a se alimentar e recebem menores porções de comida dentro das próprias famílias.
Dados apresentados pela Ação contra a Fome indicam que atualmente há 47,8 milhões de mulheres a mais do que homens vivendo em situação de insegurança alimentar no mundo. Para a entidade, a desigualdade de gênero é ao mesmo tempo causa e consequência da fome global.
Outro dado que tem mobilizado organizações internacionais foi divulgado pela Iniciativa Spotlight. O estudo aponta que cada aumento de 1°C na temperatura global está relacionado a uma elevação de 4,7% nos casos de violência doméstica. Em países frequentemente atingidos por desastres naturais, como Bangladesh, organizações relatam aumento de casamentos infantis e episódios de violência de gênero após enchentes e outras tragédias climáticas.
O cenário também preocupa em relação à pobreza. Um relatório da ONU Mulheres projeta que a falta de ações efetivas contra a mudança climática pode empurrar mais de 158 milhões de mulheres e meninas para a pobreza extrema até 2050.
Enquanto governos reforçam discursos sobre igualdade de gênero em fóruns internacionais, entidades sociais denunciam um distanciamento crescente entre promessas políticas e investimentos concretos. A França, que ocupa neste ano a presidência do G7, adotou uma estratégia de diplomacia feminista para o período de 2025 a 2030, mas organizações afirmam que programas voltados às mulheres enfrentam cortes severos de financiamento.
Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostram que a ajuda pública ao desenvolvimento dos países membros e associados caiu 23,1% em 2025, registrando a maior retração anual já contabilizada. Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Japão e França concentram a maior parte dessa redução.
Segundo entidades como a Plan International, iniciativas consideradas símbolos da diplomacia feminista francesa já sofrem impactos diretos da redução de recursos. Representantes de ONGs alertam que os cortes podem resultar no encerramento de programas sociais, interrupção de ações educacionais e aumento de situações como casamentos infantis e evasão escolar.
Além das críticas aos cortes financeiros, especialistas do Sul Global defendem maior participação feminina nos espaços internacionais de decisão sobre políticas climáticas. Pesquisadoras e lideranças indígenas afirmam que mulheres não devem ser vistas apenas como vítimas da crise ambiental, mas também como protagonistas de soluções ligadas à agricultura sustentável, proteção da natureza e adaptação climática.
Durante encontros preparatórios para o G7 do Meio Ambiente, especialistas reforçaram a necessidade de incluir mulheres — especialmente indígenas e representantes de comunidades tradicionais — nas negociações internacionais. Segundo elas, apesar de estarem diretamente envolvidas em práticas sustentáveis e na preservação ambiental, seguem excluídas dos principais espaços onde decisões globais são tomadas.
