Na esquina de um Brasil que parece sempre em véspera de si mesmo, garantismo virou guarda-chuva de ocasião. Quando chove para um lado, o outro corre pra debaixo dele, com a pressa de quem se esquece que a tempestade é de todos.
Naqueles dias febris da Lava Jato, a esquerda urrava garantias como quem recitava versículos. Era o habeas corpus, o devido processo legal, a presunção de inocência — todos de mãos dadas, como anjos barrocos cercando os réus. Enquanto isso, a direita batia panelas com raiva e queria ver cada acusado sair algemado do elevador de serviço.
Agora, quando o palco é o 8 de janeiro, o teatro muda de lado — mas as máscaras são as mesmas. A esquerda, antes defensora dos direitos fundamentais, hoje assiste calada a prisões preventivas eternas, a julgamentos sumários, a penas que mais parecem vingança. E a direita, que ontem gritava “bandido bom é bandido morto”, hoje sussurra “garantias constitucionais” com os olhos marejados de súbita vocação humanista.
É um Brasil de paixões rotativas. A Constituição virou figurino de peça de teatro: cada um veste quando convém. E o garantismo? Esse pobre coitado virou amante de temporada. Nunca é amado por inteiro, nunca é defendido por princípio. Só é lembrado quando o carrasco muda de lado.
E assim seguimos, entre um escândalo e outro, um moralismo e outro, esperando que algum dia alguém defenda as garantias mesmo quando o réu não seja seu amigo — ou seu inimigo. Porque justiça de ocasião é só revanche com toga.
