Em um momento de transição geopolítica e crescente tensão global, o chanceler brasileiro Mauro Vieira fez uma defesa enfática do Brics como um bloco multilateral propositivo e não antagônico ao Ocidente. Em artigo publicado na nova edição da revista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o ministro das Relações Exteriores contestou o que chamou de “absurdo do estereótipo” de que o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul seria um contraponto ideológico ao Ocidente.
“A atuação dos países do Brics em foros como o G20 desmente na prática o estereótipo segundo o qual se tratava de uma formulação com viés antiocidental”, afirmou Vieira, classificando esse tipo de leitura como fruto de análises “apressadas ou interessadas”.
A manifestação do chanceler ocorre às vésperas da cúpula do Brics, que será realizada no Rio de Janeiro a partir deste domingo (6), sob presidência rotativa do Brasil. Para Vieira, o grupo representa um “exercício criativo de diplomacia” que ganha ainda mais relevância em um mundo marcado por conflitos múltiplos e um sistema internacional em evidente desgaste.
“O mundo em crise nos assalta a cada momento, no celular ou em outras telas por onde nos chega a informação em tempo real”, escreveu, citando os conflitos na Ucrânia, Faixa de Gaza, Mianmar, Sudão e a violência crônica no Haiti.
Vieira também lembrou a origem técnica do termo “Brics”, criado pelo economista britânico Jim O’Neill, que previu a ascensão de economias emergentes e a necessidade de ampliar o G7 para incluir novos protagonistas globais. “O’Neill criou o acrônimo e defendeu a tese de que era necessária uma reconfiguração do G7”, apontou.
Ao abordar o conflito na Faixa de Gaza, o chanceler foi contundente: “Ninguém poderá alegar ignorância, agora ou no futuro, quanto às atrocidades e agressões que têm sido cometidas cotidianamente não apenas em Gaza, mas também na Cisjordânia”. Ele também criticou a paralisia do Conselho de Segurança da ONU e defendeu uma reforma profunda da arquitetura multilateral.
A crítica se estendeu ao cenário comercial internacional, especialmente em relação aos Estados Unidos. O “tarifaço de Trump” e o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) foram apontados como ameaças reais ao sistema multilateral de comércio. Para Vieira, a adoção de medidas unilaterais pelos EUA evidencia o risco de uma nova guerra comercial global.
Apesar das tensões, o ministro demonstrou confiança na força ampliada do bloco, que agora conta com 21 integrantes entre membros plenos e parceiros. “A expansão fortaleceu o Brics como plataforma para responder aos desafios da atualidade e do futuro”, disse. “A defesa da diplomacia e do multilateralismo já não pode mais esperar.”
O tom da mensagem de Mauro Vieira é claro: o Brics não é um polo de oposição, mas uma tentativa de resgate da cooperação internacional em um mundo fragmentado. E, sob a liderança brasileira, o grupo busca afirmar-se como ponte, e não barreira, entre diferentes visões de mundo.
*Com informações da Agência AE
