Durante décadas conhecida por seu rígido ateísmo institucional, Cuba vive hoje um notável crescimento do número de evangélicos, fenômeno que tem surpreendido especialistas e se espalhado pelas ruas da ilha. A transformação ocorre num momento de crise econômica profunda e encontra paralelo direto com o aumento da busca por espiritualidade entre os cubanos.
Segundo Pedro Alvarez Sifontes, mestre em Estudos Sociais e Filosóficos da Religião pela Universidade de Havana e pesquisador do Centro de Pesquisa Psicológica e Sociológica, o crescimento dos evangélicos nos últimos cinco anos é evidente, ainda que não existam estatísticas oficiais. Em Havana e em outras cidades, já é comum ver jovens reunidos orando publicamente — uma imagem impensável na Cuba de décadas atrás.
A explosão da fé cristã ocorre em um dos piores momentos econômicos do país desde os anos 1990, e, para muitos líderes religiosos, há uma conexão direta entre o sofrimento e a procura por fé. O teólogo evangélico Eliecer Portal ressalta que o agravamento das condições de vida após a pandemia motivou uma aproximação com as igrejas. “Momentos de crise chamam as pessoas à fé, principalmente quando sentem que suas vidas estão em jogo”, afirma.
Desde a Revolução de 1959, liderada por Fidel Castro, Cuba adotou um modelo de Estado marxista-leninista que excluiu a religião da vida pública. Por décadas, religiosos foram marginalizados: pessoas que declarassem crença em Deus eram impedidas de estudar certas áreas, como jornalismo, e de assumir cargos públicos ou participar de organizações políticas como o Partido Comunista da Juventude.
“Se você declarasse sua filiação religiosa, não teria acesso a cargos de liderança. Todos eram questionados sobre sua ascendência religiosa, para tudo”, lembra Sifontes. A exigência de um posicionamento ateu era uma condição para a ascensão social e política.
Apesar disso, o pesquisador destaca que o povo cubano “nunca deixou de ser religioso”. Nos últimos anos, especialmente a partir de 2020, os movimentos pentecostais, neopentecostais e carismáticos têm crescido em influência. Igrejas evangélicas passaram a se multiplicar em bairros populares, no centro urbano e até em espaços improvisados dentro de casas.
Para a cientista social Delana Corazza, do Observatório sobre os Neopentecostais na Política, o segredo do avanço está na forma como essas igrejas se organizam. “As igrejas evangélicas oferecem acolhimento, música, estética. São uma válvula de escape. As pessoas se ajudam, criam uma comunidade, algo que outros espaços não oferecem”, observa.
O fenômeno religioso atual em Cuba revela não apenas a resiliência da fé diante de décadas de repressão, mas também como a religião se reinventa e ocupa espaços quando o Estado deixa lacunas sociais e emocionais. Em meio à escassez e à incerteza, a espiritualidade parece ser, para muitos cubanos, a nova forma de resistência e esperança.
