O governo brasileiro intensificou suas negociações com autoridades norte-americanas para tentar excluir produtos estratégicos, como suco de laranja, café e aeronaves da Embraer, da tarifa de 50% que os Estados Unidos pretendem aplicar a partir desta sexta-feira (1º). A proposta será apresentada oficialmente nesta terça-feira (29) em Washington, em meio à expectativa de uma possível prorrogação da medida.
A nova alíquota foi anunciada dentro de um pacote de retaliações comerciais, mas o Brasil argumenta que os itens em questão são essenciais para a economia dos dois países e não podem ser facilmente substituídos. O café e o suco de laranja, por exemplo, não são produzidos em larga escala nos EUA e são fundamentais para o abastecimento interno. O próprio secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick, sinalizou à emissora CNBC que produtos como café e cacau podem ser isentados das sobretaxas, embora não tenha citado diretamente o Brasil.
Entre os produtos mais afetados, o suco de laranja concentra a maior preocupação. A tarifa de 50%, somada a um adicional de 10% já em vigor desde abril, pode provocar um impacto anual estimado em até 792 milhões de dólares, segundo cálculos da CitrusBR com base em dados da Secex. Isso representa um aumento de mais de 450% nos impostos pagos em comparação com a atual safra 2024/25. Atualmente, o Brasil paga uma tarifa fixa de US$ 415 por tonelada para exportar suco aos EUA, seu segundo maior mercado, responsável por mais de 40% das exportações brasileiras do produto.
O cenário se agrava pela crise na citricultura americana. A produção na Flórida, tradicional produtora de laranjas, tem despencado nos últimos anos devido à doença conhecida como “greening”, que compromete a maturação dos frutos. Com a redução da oferta interna, os EUA se tornaram ainda mais dependentes do suco brasileiro.
No caso do café, a situação é igualmente sensível. O Brasil é o maior fornecedor do grão para os Estados Unidos, que absorveram 17% das exportações brasileiras entre janeiro e maio deste ano. Com a possível aplicação da tarifa, não há alternativa imediata para substituição do produto, o que pode resultar em alta de preços para os consumidores americanos.
Outro item que o Brasil busca blindar é o setor aeronáutico. A Embraer, terceira maior fabricante de aviões comerciais do mundo, considera que a tarifa comprometeria sua competitividade global. A empresa mantém uma operação significativa nos EUA, com 3 mil funcionários, ativos de US$ 3 bilhões e uma cadeia de fornecedores locais estimada em US$ 21 bilhões até 2030. Atualmente, os EUA representam 45% do mercado de jatos comerciais da Embraer e 70% do segmento executivo.
Caso a sobretaxa se mantenha, a Embraer calcula um custo adicional de R$ 20 bilhões até o fim da década, com impacto de cerca de R$ 50 milhões por aeronave. Mesmo antes da imposição dos 50%, a empresa já buscava, sem sucesso, reduzir a tarifa mínima de 10% aplicada ao Brasil.
O governo brasileiro avalia que, além dos prejuízos econômicos diretos, a medida comprometeria a relação estratégica entre os dois países, especialmente em setores como aviação, energia e agronegócio. Por isso, aposta na diplomacia para reverter ou ao menos mitigar os efeitos do tarifaço nos próximos dias.
*As informações são do O Globo
