Coqueiros ao vento, águas mornas e festas que atravessam a madrugada. Por trás da beleza que atrai turistas do mundo inteiro, praias como Porto de Galinhas (PE), Pipa (RN) e Jericoacoara (CE) escondem um cenário sombrio: o domínio do tráfico de drogas e das facções criminosas que impõem regras, controlam territórios e intimidam moradores locais. O que deveria ser sinônimo de descanso e lazer se tornou território estratégico para o crime, movido por uma alta circulação de dinheiro, infraestrutura policial precária e pouca presença do Estado.
Em Porto de Galinhas, o poder da facção Trem Bala – também conhecida como Comando do Litoral Sul – é visível nas comunidades que sustentam a engrenagem turística. Câmeras controladas pelos criminosos, moradores proibidos de acionar a polícia e até agentes públicos obrigados a se identificar ao entrar em certas áreas. A facção dita regras para evitar crimes contra turistas, mas castiga com brutalidade quem infringe suas leis, inclusive com execuções e cemitérios clandestinos em mangues. Um toque de recolher em 2022, após a morte de uma criança numa operação policial, evidenciou a força do grupo e gerou pânico generalizado entre moradores e comerciantes.
Em Pipa, a engrenagem do tráfico é tão bem estruturada que lembra a lógica de empresas: escalas de trabalho, salários, funções divididas e até “mensalidade” paga pelos jovens para integrar o grupo. O Sindicato do Crime, nascido dentro de um presídio, domina a vila e controla desde a venda de drogas até o comportamento nas ruas. Em dezembro de 2024, um triplo homicídio na avenida mais movimentada da vila escancarou uma tentativa frustrada de invasão por uma facção rival. Desde então, operações policiais intensificaram prisões, mas moradores e autoridades reconhecem que os grupos se reorganizam com facilidade.
Já em Jericoacoara, o assassinato de um turista de 16 anos, confundido como membro de uma facção rival, foi o estopim para que a violência ganhasse os noticiários nacionais. A vila, dominada pelo Comando Vermelho, viu o avanço do crime paralelo nos últimos anos em meio à transformação do turismo local, cada vez mais ligado a festas e drogas sintéticas. Embora acordos velados garantam uma aparente tranquilidade, a vida dos moradores segue marcada pelo medo. Casos de agressões, ordens para deixar a cidade e “tribunais do crime” registrados em vídeo se tornaram parte da rotina em um lugar que já foi refúgio de tranquilidade.
O que essas três praias têm em comum é o abandono do poder público e a alta atratividade econômica para o crime. Facções, antes restritas a centros urbanos e fronteiras, hoje enxergam nessas vilas não só lucros fáceis, mas também pouca resistência. A combinação entre turismo de alto consumo, comunidades vulneráveis e Estado ausente criou o terreno ideal para o avanço do poder paralelo. E enquanto as autoridades hesitam em admitir a dimensão do problema, moradores vivem entre o silêncio imposto e o medo constante de que o próximo alvo seja alguém que conhecem.
Com informações da BBC Brasil./Foto: Divulgação.
