A Ucrânia enfrenta um novo e delicado capítulo político em meio à guerra com a Rússia. O presidente Volodimir Zelensky, que há quase quatro anos se tornou símbolo mundial de resistência, agora se vê cercado por acusações de corrupção e denúncias de que estaria usando o sistema judicial para intimidar críticos e proteger aliados próximos.
O escândalo ganhou força nesta quarta-feira (12), após o ministro da Justiça, German Galushchenko, ser suspenso de suas funções sob suspeita de envolvimento em um esquema de propinas que pode ter movimentado US$ 100 milhões (cerca de R$ 527 milhões) na empresa nacional de energia. O caso também atinge Timur Mindich, amigo pessoal de Zelensky e coproprietário da produtora audiovisual que o lançou à fama antes da política.
A revelação chega em um momento crítico para o governo, com novos avanços russos no leste do país e um aumento da pressão interna por transparência. Desde o início da guerra, Zelensky manteve índices de popularidade elevados, mas as recentes investigações colocam sua gestão sob escrutínio.
Outro caso que levantou suspeitas de perseguição política foi a prisão, em outubro, de Volodymyr Kudrytsky, ex-diretor da companhia estatal de energia Ukrenergo. Ele é acusado de desvio de fundos, mas afirma ser vítima de uma retaliação por criticar a forma como o governo vem administrando a rede elétrica sob os ataques russos. “É um processo político. Isso não aconteceria sem a participação do gabinete presidencial”, declarou Kudrytsky, que hoje responde em liberdade sob fiança.
Parlamentares da oposição e defensores públicos têm questionado o uso do Judiciário em casos que envolvem figuras críticas ao governo. A deputada Inna Sovsun afirmou à AFP que há um padrão de intimidação. “As pessoas sabem que, se disserem algo que o poder não goste, podem se tornar alvo de investigações.”
Apesar das acusações, Zelensky defendeu que os processos corram na Justiça, evitando se pronunciar diretamente sobre seus aliados. “Cabe ao Judiciário resolver esses casos”, afirmou, reforçando que o sistema de energia do país “precisa funcionar e garantir o abastecimento à população”.
O cenário é particularmente sensível porque o governo ucraniano tenta consolidar sua candidatura à União Europeia (UE), que exige reformas democráticas e rigor no combate à corrupção. Bruxelas vê as recentes denúncias como um teste decisivo para a credibilidade do país.
Desde o colapso da União Soviética, a Ucrânia enfrenta uma longa série de escândalos envolvendo desvio de recursos públicos. Agora, com a guerra ainda em curso e a confiança internacional em jogo, o governo de Zelensky precisa provar que continua comprometido com a transparência — e não com a blindagem de seus aliados mais próximos.
