O ator alemão Udo Kier, um dos rostos mais marcantes do cinema mundial e figura querida pelo público brasileiro, morreu neste domingo (23), aos 81 anos. A informação foi confirmada pelo companheiro do artista, Delbert McBride, à revista Variety. Com mais de 200 produções no currículo, Kier era conhecido por sua presença magnética, preferência por vilões e atuação em obras que se tornaram cult ao longo das décadas.
Nascido em 1944, em Colônia, Kier estreou no cinema ainda jovem, no curta Road to Saint Tropez (1966). A partir daí construiu uma trajetória intensa e multifacetada, marcada por papéis ousados e personagens excêntricos. Tornou-se mundialmente reconhecido pelos filmes Carne para Frankenstein (1973) e Sangue para Drácula (1974), dirigidos por Paul Morrissey e produzidos por Andy Warhol. Em entrevista ao Estadão em 2019, relembrou o impacto daquele momento: “Se o Andy Warhol estiver certo, estes são os meus 15 minutos de fama, e eles acabam agora”, disse, entre risos.
Logo depois, recebeu o convite para interpretar Drácula — desafio que veio acompanhado de uma exigência extrema: perder nove quilos em uma semana. “Vivi à base de água e alface, mal conseguia me levantar da cadeira. Mas fiz”, contou. Para ele, o ofício de ator era justamente isso: atravessar mundos, descobrir realidades e se reinventar.
Kier trabalhou com grandes nomes como Rainer Werner Fassbinder, Lars von Trier e Gus Van Sant, além de participar de sucessos populares como Ace Ventura: Um Detetive Diferente (1994), Blade (1998), Armageddon (1998) e as versões live-action de As Aventuras de Pinóquio (1996 e 1999), onde interpretou o vilão Lorenzini.
No Brasil, Udo Kier ganhou legiões de admiradores ao interpretar Michael, o líder de um grupo de estrangeiros em Bacurau (2019), filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles premiado no Festival de Cannes. A experiência mudou sua percepção sobre o país. “Foram três semanas no paraíso”, disse sobre as filmagens no sertão. Fascinado pela cultura local, afirmou ter encontrado ali “uma realidade cheia de humanidade”.
Mais recentemente, integrou o elenco de O Agente Secreto (2025), no qual interpreta um personagem inicialmente apresentado como nazista, mas que, ao longo da trama, revela ser um ex-prisioneiro de um campo de concentração. O longa brasileiro, ainda em cartaz, está cotado para o Oscar de 2026.
Intenso, versátil e dono de uma presença inconfundível, Udo Kier deixa uma marca profunda no cinema mundial — e particularmente no brasileiro, onde encontrou novos colaboradores, novos fãs e um novo lar artístico nos últimos anos. Sua morte encerra uma carreira de quase 60 anos, mas sua obra, vasta e surpreendente, segue viva para além das telas.
*Com informações da Agência AE
