A Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) reuniu, nesta segunda-feira (1º), um dos maiores públicos já registrados em audiência sobre o setor agrícola. Produtores de cana-de-açúcar, representantes de usinas, associações e lideranças da cadeia produtiva lotaram o auditório Senador Sérgio Guerra para discutir medidas emergenciais diante da grave crise que atinge a atividade no Estado e no Nordeste. O encontro foi conduzido pelo presidente da Comissão de Agricultura, deputado Luciano Duque (SD), após solicitação do deputado Antônio Moraes (PP).
Os participantes classificaram o cenário como o pior da história do setor, resultado da combinação entre a queda abrupta no preço da cana, o aumento dos custos de produção, impactos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos e a seca severa que ameaça os canaviais atuais e futuros. A soma desses fatores tem provocado prejuízos massivos, atrasos em pagamentos e risco de retração econômica profunda na Zona da Mata, região sustentada pela cultura canavieira há séculos.
Durante a audiência, foram defendidas medidas emergenciais para impedir um colapso da atividade, incluindo subvenção por tonelada produzida, linhas de crédito específicas para custeio da próxima safra, apoio financeiro às usinas e fornecedores e ações imediatas de mitigação dos efeitos da estiagem. Luciano Duque propôs que todas as sugestões sejam formalizadas em um documento a ser entregue diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que visita Pernambuco nesta terça (2).
O parlamentar anunciou ainda que as propostas integrarão o relatório oficial da Comissão de Agricultura e serão encaminhadas ao Governo do Estado, à bancada federal e aos órgãos competentes. “Essa cadeia produtiva sustenta milhares de famílias na Zona da Mata e precisa de respostas imediatas. Nosso dever é transformar esse debate em ações concretas”, afirmou.
Responsável por solicitar a audiência, Antônio Moraes explicou que foi procurado por lideranças do setor, como o presidente do SINDAÇÚCAR-PE, Renato Cunha; o presidente da AFCP, Alexandre Andrade Lima; e o presidente do SINDICAPE, Gerson Carneiro Leão. “A ideia foi promover uma discussão objetiva e construir encaminhamentos que possam ser apresentados em audiência com a governadora Raquel Lyra”, disse. Moraes afirmou ainda que conversas iniciais já vêm sendo feitas com as secretarias estaduais da Casa Civil e da Fazenda. “Precisamos de soluções que sejam positivas para todos — o setor, os trabalhadores e o governo.”
O diretor-presidente da FAEPE, Pio Guerra, destacou que a crise ultrapassa o aspecto econômico: “A cana-de-açúcar não é apenas uma atividade produtiva. Ela representa a história de Pernambuco e sustenta dezenas de municípios. A continuidade dessa atividade significa preservar nossa identidade”.
O empresário Eduardo Monteiro, presidente do Grupo EQM, reforçou o risco imediato do setor caso não haja ações urgentes. “A cana é um ativo biológico vivo. Se ele morre, a recuperação leva anos. Precisamos de medidas rápidas para garantir que esse patrimônio produtivo não desapareça.”
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Cana de Palmares, Givanildo Marques, lembrou que a subvenção ao produtor já existiu e pode ser retomada rapidamente. “Esse instrumento foi criado pelo próprio presidente Lula. Basta reeditá-lo para aliviar o produtor que está sufocado.”
O cofundador da UNICA, Gregório Maranhão, ressaltou que, mesmo em uma safra crítica, o setor ainda deve movimentar cerca de R$ 180 milhões em Pernambuco — o que evidencia a urgência de medidas para evitar um colapso total.
Também participaram do debate representantes do SINDAÇÚCAR-PE, AFCP e SINDICAPE; a secretária executiva de Agricultura, Jackeline Gadé; o deputado federal Coronel Meira (PL); e os deputados estaduais Nino de Enoque (PL), France Hacker (PSB), Henrique Queiroz Filho (PP) e Doriel Barros (PT). Todas as lideranças reforçaram a necessidade de união institucional para enfrentar a crise que ameaça a principal atividade econômica da Zona da Mata.
