O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone nesta terça-feira (2) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um diálogo que combinou diplomacia econômica e segurança internacional. Segundo o Palácio do Planalto, a chamada de 40 minutos foi “muito produtiva” e reforçou o interesse brasileiro em acelerar as negociações para retirar a sobretaxa de 40% ainda aplicada a parte das exportações nacionais.
Lula reconheceu como positiva a decisão recente da Casa Branca, que retirou 238 itens da lista de produtos tarifados — entre eles café, chá, frutas tropicais, sucos, cacau, especiarias, banana, laranja, tomate e carne bovina. Ainda assim, o presidente enfatizou que 22% das exportações brasileiras para os Estados Unidos continuam sujeitas ao tarifaço, número considerado alto pelo governo. “Há outros produtos tarifados que precisam ser discutidos entre os dois países, e o Brasil deseja avançar rápido nessas negociações”, reforçou Lula ao presidente norte-americano.
O tarifaço faz parte da política comercial agressiva adotada por Trump para enfrentar a perda de competitividade dos Estados Unidos diante da China. Inicialmente, o Brasil foi enquadrado na menor faixa de tarifas devido ao superávit americano nas relações bilaterais, mas as medidas se intensificaram ao longo do tempo. A sobretaxa de 40%, que ainda atinge produtos brasileiros, foi imposta em agosto como retaliação a decisões internas do Brasil consideradas prejudiciais às big techs dos EUA e como resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A recente flexibilização das barreiras tarifárias, segundo o governo brasileiro, é resultado direto do alinhamento diplomático estabelecido entre Lula e Trump em encontros anteriores, incluindo uma reunião na Malásia em outubro. Mesmo com o avanço, o Planalto afirma que o setor industrial continua sendo a maior preocupação, já que muitos desses produtos — de maior valor agregado e menos adaptáveis a outros mercados — permanecem submetidos às taxas adicionais.
Além das tarifas, os dois presidentes trataram de temas estratégicos fora da pauta comercial, como terras raras, energia renovável, regulação de big techs e o regime fiscal para serviços de data center (Redata). São áreas consideradas sensíveis e de impacto direto na competitividade tecnológica de ambos os países.
O combate ao crime organizado também ganhou destaque na conversa. Lula alertou Trump para a “urgência” de reforçar a cooperação bilateral contra redes criminosas que atuam de forma transnacional. O presidente ressaltou as recentes operações deflagradas no Brasil com foco em asfixiar financeiramente facções e identificou ramificações que operam a partir do exterior — algumas delas utilizando o estado de Delaware como paraíso fiscal para lavagem de dinheiro.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já havia defendido a necessidade de atuação conjunta para impedir a evasão de divisas. Uma das operações mais recentes identificou o envio ilegal de R$ 1,2 bilhão para fundos em Delaware, com posterior retorno ao país após processos de lavagem.
Segundo comunicado do Planalto, Trump demonstrou “total disposição” em trabalhar lado a lado com o Brasil e apoiar iniciativas conjuntas contra o crime organizado. Os dois presidentes concordaram em continuar o diálogo nas próximas semanas, tanto para avançar nas negociações tarifárias quanto para aprofundar a cooperação em segurança.
A ligação revela um esforço diplomático multifacetado, no qual Brasil e Estados Unidos tentam equilibrar interesses econômicos, pressões políticas e desafios globais — enquanto buscam, também, redefinir os contornos de uma parceria estratégica que tem sido decisiva para ambos os países.
