A Austrália vive dias de comoção e apreensão após o ataque antissemita que deixou 15 mortos na praia de Bondi, em Sydney. Nesta quarta-feira (17), enquanto familiares e membros da comunidade judaica se despediam de algumas das vítimas, a polícia formalizou a acusação contra Naveed Akram, de 24 anos, apontado como um dos autores do atentado ocorrido no último domingo, durante a celebração judaica de Hanukkah.
Segundo as autoridades do estado de Nova Gales do Sul, Naveed foi indiciado por 15 acusações de homicídio e por cometer um ato terrorista. A polícia sustenta que ele participou de ações que resultaram em mortes e ferimentos graves, colocando em risco a vida de dezenas de pessoas com o objetivo de promover uma causa religiosa e espalhar medo. As investigações iniciais indicam que o ataque teria sido inspirado pela ideologia do Estado Islâmico, grupo classificado como organização terrorista pelo governo australiano.
O pai de Naveed, Sajid Akram, de 50 anos, também suspeito de envolvimento direto no atentado, morreu no local após uma troca de tiros com a polícia. Naveed foi baleado durante a ação e permanece hospitalizado, sob escolta policial. Armados com fuzis, pai e filho dispararam por cerca de dez minutos contra participantes da festividade na praia, em uma das regiões mais conhecidas de Sydney.
O clima de luto marcou os funerais realizados ao longo do dia. Eli Schlanger, conhecido como o “rabino de Bondi” e pai de cinco filhos, foi o primeiro a ser sepultado. O cortejo até a sinagoga Chabad de Bondi reuniu parentes, amigos e fiéis, que acompanharam em silêncio a chegada do caixão. Durante a cerimônia, líderes da comunidade judaica destacaram o papel do rabino como referência espiritual e humana. Horas depois, a mesma sinagoga ficou lotada para a despedida do rabino Yaakov Levitan, de 39 anos, pai de quatro filhos, em meio a forte esquema de segurança policial.
O primeiro-ministro Anthony Albanese manifestou solidariedade às famílias das vítimas e afirmou que o país enfrenta o impacto de uma “ideologia de ódio” que radicaliza indivíduos. Ele também elogiou atos de bravura registrados durante o ataque. Entre eles, o de Boris e Sofia Gurman, um casal de idosos morto após tentar reagir a um dos atiradores, e o de Ahmed Al Ahmed, que conseguiu desarmar um dos criminosos, gesto filmado e amplamente compartilhado nas redes sociais.
As revelações sobre o histórico dos suspeitos levantaram questionamentos sobre possíveis falhas na prevenção do atentado. Naveed havia chamado a atenção da inteligência australiana em 2019, mas não foi classificado como uma ameaça iminente. A polícia investiga ainda se pai e filho tiveram contato com extremistas durante uma viagem recente às Filipinas, onde permaneceram por semanas na região de Mindanao, área marcada por conflitos ligados a grupos islamistas. O governo filipino negou que o país tenha sido usado como base para treinamento terrorista.
O ataque reacendeu o debate sobre o controle de armas na Austrália. As autoridades já sinalizaram a intenção de endurecer a legislação, especialmente após vir à tona que Sajid Akram possuía porte legal de seis armas. Embora tiroteios em massa sejam raros no país desde o massacre de Port Arthur, em 1996, dados recentes apontam crescimento no número de armas em circulação.
Além da dor pelas perdas, a comunidade judaica expressa um sentimento crescente de insegurança. Durante as homenagens, líderes religiosos afirmaram que o atentado expôs falhas no combate ao antissemitismo no país. Para muitos, o ataque revive memórias traumáticas de perseguições que suas famílias acreditavam ter deixado para trás ao buscar refúgio na Austrália. O episódio em Bondi, agora tratado como terrorismo, aprofunda uma ferida nacional e coloca em evidência desafios urgentes relacionados à segurança, à intolerância e à prevenção do extremismo.
