O iraniano Erfan Soltani, de 26 anos, deve ser executado por enforcamento nesta quarta-feira (14), apenas seis dias depois de ter sido preso em sua própria casa, no distrito de Fardis, na cidade de Karaj. O caso ocorre em meio à intensificação da repressão do governo iraniano contra manifestações que se espalham pelo país há cerca de um mês, impulsionadas pela crise econômica, pela alta do custo de vida e pela forte desvalorização da moeda nacional, o rial.
Soltani trabalhava na indústria de vestuário e havia sido recentemente contratado por uma empresa privada do setor. Pessoas próximas o descrevem como um jovem apaixonado por moda e estilo pessoal, com uma vida simples e discreta. Nas redes sociais, mantinha um perfil reservado, onde compartilhava interesses por musculação, esportes e hábitos saudáveis, sem histórico de militância pública de destaque.
A prisão ocorreu na última quinta-feira (8), após a participação de Soltani em protestos contra o regime dos aiatolás. Segundo relatos obtidos pelo portal IranWire, ele já vinha recebendo mensagens intimidatórias de forças de segurança e tinha consciência de que estava sendo monitorado, mas optou por continuar participando das manifestações. Durante três dias, a família não recebeu qualquer informação oficial sobre seu paradeiro, o que aumentou a angústia e a incerteza.
O primeiro contato das autoridades ocorreu apenas no domingo (11), quando agentes informaram que Erfan já estava detido e havia sido condenado à morte. A acusação formal é de Moharebeh, termo jurídico usado pelo regime iraniano que significa “guerra contra Deus” ou “inimizade contra Deus”, frequentemente aplicado em casos ligados a protestos e utilizado como base para a imposição da pena capital.
Organizações de direitos humanos e fontes próximas à família denunciam a total ausência de garantias legais no processo. De acordo com relatos, Soltani não teve acesso a advogados, não houve audiência pública e nenhuma instância judicial independente analisou o caso. Um parente próximo, que é advogado, tentou assumir a defesa, mas teria sido impedido e ameaçado por autoridades de segurança. Segundo uma fonte anônima, a família ouviu de agentes do Estado que não haveria processo a ser analisado, pois qualquer pessoa presa durante os protestos estaria automaticamente condenada à execução. Aos familiares, foi autorizada apenas uma visita de despedida, com duração de cerca de dez minutos.
A execução iminente de Erfan Soltani se insere em um contexto de violência crescente no Irã. Dados da Human Rights Activists News Agency indicam que mais de 18 mil pessoas foram detidas desde o início das manifestações. O número de mortos segue sendo motivo de controvérsia: enquanto um integrante do governo iraniano mencionou à agência Reuters cerca de 2 mil vítimas fatais, organizações independentes de direitos humanos estimam que o total já ultrapasse 2.400 mortes.
O caso provocou repercussão internacional e reacendeu críticas ao regime iraniano. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, condenou publicamente as ações do governo do Irã, alertou contra a realização de execuções e afirmou avaliar formas de intervenção, além de encorajar manifestantes em declarações à imprensa e nas redes sociais. Em resposta, o embaixador iraniano na Organização das Nações Unidas, Amir Saeid Iravani, enviou uma carta ao Conselho de Segurança acusando Estados Unidos e Israel de incentivarem a instabilidade e a violência no país, responsabilizando-os pela morte de civis.
Enquanto pressões diplomáticas se intensificam, a situação de Erfan Soltani segue indefinida, simbolizando, para organizações internacionais, o endurecimento da repressão estatal e o uso da pena de morte como instrumento para sufocar a contestação popular no Irã.
