A onda de protestos que tomou as ruas do Irã nas últimas semanas perdeu força após uma repressão considerada brutal por organizações internacionais de direitos humanos. Segundo entidades de monitoramento, a diminuição das manifestações ocorre em meio a milhares de mortes, forte presença das forças de segurança e um prolongado apagão da internet, adotado pelas autoridades para limitar a circulação de informações sobre a dimensão da violência.
As mobilizações começaram em 28 de dezembro, em Teerã, motivadas inicialmente pelo alto custo de vida, mas rapidamente ganharam contornos políticos ao exigir o fim do sistema clerical que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979. Com o avanço dos protestos para diversas cidades, o governo reagiu com medidas severas, incluindo o bloqueio quase total da internet, estratégia que, segundo organizações de direitos humanos, visa ocultar abusos e dificultar a mobilização popular.
Na noite de quinta-feira, véspera de um feriado prolongado de três dias, o clima na capital iraniana era de forte vigilância. Relatos indicam grande concentração de forças de segurança nas ruas, sinalizando o endurecimento do controle estatal. Para analistas do Instituto para o Estudo da Guerra, sediado nos Estados Unidos, a repressão conseguiu, ao menos temporariamente, sufocar o movimento. Ainda assim, o instituto avalia que a mobilização constante das forças de segurança é insustentável a longo prazo, o que mantém aberta a possibilidade de novos protestos.
O grupo Iran Human Rights, com sede na Noruega, estima que ao menos 3.428 manifestantes tenham sido mortos pelas forças de segurança, número que pode ser significativamente maior. O diretor da organização, Mahmood Amiry-Moghaddam, classificou a repressão como um dos crimes mais graves da atualidade, citando relatos de manifestantes baleados enquanto tentavam fugir, uso de armamento de guerra e execuções sumárias em vias públicas. A Human Rights Watch também descreveu a situação como marcada por massacres sem precedentes no país.
O apagão digital já ultrapassa 180 horas, segundo a Netblocks, ONG especializada em monitoramento de cibersegurança, superando até mesmo as restrições impostas durante os protestos massivos de 2019. Imagens verificadas por agências internacionais mostram corpos em necrotérios e familiares desesperados à procura de desaparecidos, cenas que reforçam a gravidade do cenário humanitário.
Paralelamente à repressão interna, a tensão externa envolvendo o Irã parece ter diminuído. A possibilidade de uma ação militar dos Estados Unidos perdeu força após intensas articulações diplomáticas. De acordo com um alto funcionário saudita, aliados do Golfo, como Arábia Saudita, Catar e Omã, convenceram o presidente americano, Donald Trump, a dar “uma oportunidade” a Teerã, alertando para o risco de graves consequências regionais em caso de escalada militar.
Movimentos diplomáticos também envolveram outras potências. O presidente russo, Vladimir Putin, conversou com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e sinalizou intenção de dialogar com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, numa tentativa de reduzir as tensões. A Casa Branca confirmou conversas entre Trump e Netanyahu, enquanto mantém o discurso de que todas as opções seguem em análise.
Washington anunciou ainda sanções econômicas contra autoridades iranianas acusadas de coordenar a repressão, incluindo Ali Larijani, que lidera o principal órgão de segurança do país. No Conselho de Segurança da ONU, a jornalista iraniano-americana Masih Alinejad afirmou que a população iraniana está unida contra o sistema clerical. Em resposta, o representante do Irã acusou os Estados Unidos de explorar os protestos com objetivos geopolíticos.
Embora o silêncio das ruas indique um momento de retração, analistas e ativistas alertam que as causas do descontentamento permanecem vivas. A repressão pode ter interrompido as manifestações, mas não apagou a insatisfação profunda que continua a marcar a sociedade iraniana.