O prefeito Marcílio Régio decidiu chamar de modernização aquilo que, para muitos nos bastidores políticos, soa como um inchaço escancarado da máquina pública. O projeto de lei da reforma administrativa enviado à Câmara Municipal promove um salto difícil de justificar: a Prefeitura de Goiana sai de 564 cargos comissionados para 1.085. Mais que uma reestruturação administrativa, o texto revela uma reengenharia política da gestão, com amplo espaço para acomodação de aliados e fortalecimento de bases internas.
O exemplo mais emblemático está na Secretaria de Articulação Política, Governo e Participação Social, que sozinha passa a concentrar 84 cargos comissionados. Em um município que ainda convive com gargalos históricos em áreas essenciais, o governo escolhe reforçar justamente a pasta responsável por articulações, relações institucionais e participação social — uma combinação que, na prática, amplia o raio de influência política do Executivo e reforça o caráter estratégico da secretaria como eixo de sustentação do governo.
A reforma também cria novas pastas e eleva estruturas já existentes a um novo patamar burocrático. Surge a Secretaria Municipal de Habitação e Regularização Fundiária Urbana, apresentada como resposta ao déficit habitacional e à informalidade urbana, mas que chega acompanhada do previsível pacote de cargos de confiança. No mesmo movimento, a antiga Coordenadoria de Licitações e Contratos é alçada ao status de Secretaria Municipal, ampliando estrutura, autonomia e número de nomeações em uma das áreas mais sensíveis da administração pública.
A lógica da expansão, porém, não se limita às novas criações. A Secretaria dos Distritos, por exemplo, carrega uma distorção que atravessou governos. Criada ainda na gestão do ex-prefeito Eduardo Honório Carneiro sem sequer existir o cargo de secretário, a pasta nasceu como uma anomalia administrativa. Agora, o erro original é convenientemente usado como justificativa para uma nova leva de cargos, com o fortalecimento da estrutura interna e o aumento de gerentes distritais e administradores regionais. Em vez de corrigir o vício de origem com racionalidade, a solução encontrada segue o roteiro já conhecido: criar mais postos, ampliar a máquina e perpetuar um ciclo de inchaço que parece não ter fim.
O discurso oficial tenta sustentar que a reforma busca eficiência, especialização técnica e modernização da gestão. No papel, o organograma cresce com nomenclaturas sofisticadas; na prática, cresce também o peso da folha, a dependência política e a percepção de que o governo optou por governar com cargos em vez de prioridades. Em tempos de cobrança por austeridade, responsabilidade fiscal e foco em resultados, a administração Marcílio Régio segue na contramão, apostando em uma prefeitura mais pesada, mais cara e politicamente mais inchada.
Confira abaixo a reforma administrativa na integra:
PL Nº 004 – 2026 – REFORMA ADMINISTRATIVA – NOVA VERSÃO 13.01.26 (1)
