O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, oficializou nesta quarta-feira a criação de um “Conselho de Paz” com a proposta de atuar na resolução de conflitos em diferentes regiões do mundo. A iniciativa, que já conta com o apoio inicial de cerca de 35 líderes internacionais, entra em vigor assim que ao menos três Estados assinarem a carta de adesão. Anunciado pela Casa Branca como parte de um plano para lidar com a guerra na Faixa de Gaza, o projeto ganhou contornos mais amplos e passou a ser visto por críticos como uma tentativa de rivalizar com a Organização das Nações Unidas.
Em discurso, Trump reconheceu a relevância histórica da ONU, mas afirmou que o organismo falhou em promover ações concretas para garantir a paz. Segundo ele, o novo conselho pretende preencher esse espaço por meio de uma atuação mais direta e decisiva. O presidente norte-americano afirmou que trabalhará em conjunto com as Nações Unidas, mas defendeu que o potencial da organização tem sido desperdiçado. Para Trump, a proposta representa a chance de encerrar décadas de conflitos e construir um legado de pacificação global.
O anúncio foi acompanhado de declarações contundentes. Trump criticou a Espanha por não aderir à cúpula da Otan realizada em junho, quando pressionou aliados a destinarem 5% do PIB para gastos com defesa, e enviou um recado direto ao Hamas, exigindo a deposição das armas sob a ameaça de consequências severas. O novo conselho prevê uma participação permanente mediante contribuição de US$ 1 bilhão e já convidou figuras centrais da geopolítica mundial, como Vladimir Putin, Benjamin Netanyahu, Volodimir Zelensky e o papa Leão XIV.
De acordo com o rascunho do estatuto, o Conselho de Paz se define como uma organização internacional voltada à estabilidade, à reconstrução da governança e à garantia de uma paz duradoura em regiões afetadas por conflitos. O texto faz críticas explícitas a modelos e instituições que, segundo o documento, falharam repetidamente, em referência indireta à ONU. Um porta-voz das Nações Unidas afirmou em Genebra que a iniciativa não faz parte dos planos da organização e lembrou que a autorização concedida pelo Conselho de Segurança se limita à atuação em Gaza.
Trump será o primeiro presidente do Conselho de Paz e concentrará amplos poderes. Caberá a ele convidar ou excluir chefes de Estado e de governo, salvo veto de dois terços dos membros. O conselho executivo terá sete integrantes, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff, o genro do presidente Jared Kushner e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Os mandatos terão duração de até três anos, renováveis, com exceções para países que contribuírem com valores superiores a US$ 1 bilhão no primeiro ano.
Entre os líderes que já aceitaram integrar o conselho estão o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, o premiê israelense Benjamin Netanyahu, o presidente argentino Javier Milei, o primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, e a presidente de Kosovo, Vjosa Osmani. Países do Oriente Médio e da Ásia, como Arábia Saudita, Catar, Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Indonésia e Paquistão, também anunciaram adesão conjunta, além do Bahrein, Marrocos, Cazaquistão e Azerbaijão.
Por outro lado, Noruega, França e Ucrânia já descartaram a participação, e Zelensky indicou que não pretende integrar um organismo que inclua a Rússia. Moscou, por sua vez, afirmou que ainda analisa os termos do convite, enquanto a China reiterou seu apoio ao sistema internacional centrado na ONU. Reino Unido, Alemanha, União Europeia, Canadá e outros países pediram mais tempo para avaliar a proposta. O Brasil figura entre os convidados que ainda não se manifestaram oficialmente.
A criação do Conselho de Paz reacende o debate sobre governança global e o papel das instituições multilaterais em um cenário internacional marcado por conflitos persistentes e disputas de poder. Enquanto apoiadores veem a iniciativa como uma alternativa pragmática para destravar negociações, críticos alertam para o risco de fragmentação da diplomacia internacional e de enfraquecimento dos mecanismos tradicionais de mediação.