O Hamas afirmou nesta quarta-feira (28) que está pronto para deixar o controle administrativo da Faixa de Gaza e transferir o governo do território a um comitê tecnocrático palestino, desde que a passagem fronteiriça de Rafah, na divisa com o Egito, seja reaberta de forma plena. A declaração foi feita à agência AFP e ocorre no contexto do cessar-fogo que entrou em vigor em 10 de outubro, com mediação dos Estados Unidos.
O grupo afirmou que já iniciou medidas práticas para viabilizar a transição de poder ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, formado por 15 tecnocratas palestinos e criado justamente para gerir o território no pós-guerra. Segundo o porta-voz do Hamas em Gaza, Hazem Qassem, ministérios, órgãos públicos e até estruturas de segurança estariam prontos para entregar documentos, arquivos e responsabilidades ao novo órgão administrativo.
De acordo com o Hamas, os protocolos de transferência já foram preparados e comitês internos foram estabelecidos para acompanhar o processo, com o objetivo de assegurar uma entrega completa da governança em todos os setores. O comitê será liderado por Ali Shaath, ex-vice-ministro da Autoridade Palestina, e deve ingressar na Faixa de Gaza assim que houver a reabertura da passagem de Rafah.
A condição imposta pelo grupo, no entanto, é clara: a fronteira deve voltar a funcionar nos dois sentidos, permitindo a livre entrada e saída de pessoas e bens, sem restrições impostas por Israel. A passagem permanece fechada desde maio de 2024, quando forças israelenses assumiram seu controle, tendo sido reaberta apenas de forma limitada no início de 2025. Para o Hamas, o funcionamento de Rafah sob regras israelenses esvaziaria o acordo e comprometeria a autonomia do novo comitê.
Israel, por sua vez, comprometeu-se apenas com uma reabertura restrita da passagem, condicionada à recuperação dos restos mortais do último refém mantido pelo grupo desde o ataque de 7 de outubro de 2023. O corpo de Ran Gvili foi localizado na última segunda-feira, o que abriu espaço para avanços pontuais no cumprimento do acordo.
O entendimento que sustenta o cessar-fogo prevê não apenas a criação de uma administração civil tecnocrática para Gaza, mas também o desarmamento do Hamas e a retirada das tropas israelenses do território. A supervisão política do processo ficará a cargo de um Conselho da Paz, que será liderado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Enquanto negociações seguem em andamento, a reabertura de Rafah desponta como ponto central para definir os próximos passos do futuro administrativo e humanitário da Faixa de Gaza.