O vazamento de mensagens atribuídas ao vice-governador do Maranhão, Felipe Camarão (PT), nas quais ele ataca verbalmente o presidente do diretório municipal do partido em Viana, Frederich Marx, escancarou a crise interna da legenda no estado e aprofundou o embate em torno da sucessão ao Palácio dos Leões. O episódio ocorre em meio à disputa pelo protagonismo da chapa governista e pela atenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, peça central na definição do cenário eleitoral maranhense.
As mensagens, trocadas em um grupo interno do partido, mostram um bate-boca após Marx criticar a estratégia do PT de lançar candidatura própria ao governo estadual. Em resposta, Camarão reage de forma agressiva, usando termos ofensivos para desqualificar o correligionário. Procurado, o vice-governador afirmou que participa ativamente dos debates partidários e que sua intervenção ocorreu para esclarecer o momento político vivido pela sigla no Maranhão.
Aliado do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, Camarão trabalha para viabilizar seu nome como candidato ao governo. Do outro lado, o atual governador Carlos Brandão, hoje sem partido, articula a sucessão em torno do sobrinho, Orleans Brandão, secretário de Assuntos Municipalistas e presidente estadual do MDB. A disputa colocou em lados opostos grupos que caminharam juntos em eleições anteriores e passou a gerar reflexos diretos dentro do PT.
A direção estadual do partido reconhece a indefinição e sustenta que a palavra final sobre o posicionamento da legenda caberá a Lula. Internamente, três caminhos são avaliados: apoiar o nome indicado por Brandão, bancar a candidatura de Camarão ou tentar costurar uma alternativa que una os dois grupos. Esta última é considerada a opção ideal, mas vista como improvável após o rompimento político consolidado no fim de 2025.
A tensão entre as alas ganhou força após o vazamento de áudios em que aliados de Flávio Dino cobravam do grupo de Brandão o cumprimento de acordos firmados durante a eleição de 2024, especialmente em relação a indicações para o Tribunal de Contas do Estado. O impasse chegou ao Supremo e acabou ampliando o desgaste. À época, o próprio Lula criticou publicamente o conflito e alertou que disputas internas poderiam abrir espaço para o avanço de adversários políticos.
Nos bastidores, também chegou a ser cogitada uma aproximação do PT com o prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), dentro de uma eventual aliança nacional. A hipótese, no entanto, perdeu força diante do cenário nacional do PSD e da resistência local. Para a presidente estadual do PT, Patrícia Carlos, Lula tenta construir uma solução que não passe nem por Orleans nem por Camarão, preservando a aliança com Brandão e evitando um rompimento definitivo no estado.
Aliados do governador afirmam que uma conversa com Lula deve ocorrer nos próximos dias para tratar do impasse. Eles sustentam que o presidente mantém uma relação sólida com Brandão e avaliam que Camarão tem pouca capilaridade eleitoral no interior. Já o vice-governador afirma contar com o apoio da direção nacional do PT e diz dialogar com forças políticas que se opõem ao que chama de “projeto oligárquico” do atual governador.
Camarão afirma que a união ainda é possível, desde que acordos firmados em 2022 sejam respeitados. Segundo ele, a proposta original previa que Brandão disputasse o Senado, abrindo espaço para que assumisse o governo e concorresse à reeleição, com a definição das demais vagas sob a coordenação de Lula. De acordo com o vice-governador, a insistência de Brandão em lançar o sobrinho é hoje o principal obstáculo para qualquer entendimento, aprofundando uma divisão que ameaça fragmentar o campo governista no Maranhão.