A nova leva de documentos ligados ao escândalo Jeffrey Epstein segue provocando ondas de choque na política internacional e reacendendo debates sobre responsabilidades, limites da exposição pública e uso indevido de informações sensíveis. Diante da repercussão, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu na terça-feira (3) que o país “vire a página” do caso, argumentando que o tema tem sido usado politicamente e desviaria a atenção de assuntos que, segundo ele, importam mais à população.
A declaração ocorreu após a divulgação de milhões de arquivos relacionados ao financista, morto em 2019, gerar investigações e cobranças públicas envolvendo figuras influentes dos Estados Unidos e do Reino Unido. Em Londres, o ex-embaixador britânico em Washington, Peter Mandelson, renunciou ao seu assento na Câmara dos Lordes em meio a acusações de que teria repassado informações confidenciais a Epstein. A polícia britânica confirmou a abertura de uma investigação para apurar possíveis crimes de má conduta no exercício de cargo público.
Nos Estados Unidos, as consequências também se intensificaram. O ex-presidente Bill Clinton e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton aceitaram prestar depoimento ao Congresso no fim de fevereiro. A comissão responsável pela investigação informou que Bill Clinton será ouvido no dia 27, por conta de sua relação pessoal com Epstein, enquanto Hillary deverá depor um dia antes para esclarecer o que sabia sobre os vínculos entre o marido e o financista.
Mesmo com o avanço das investigações, Trump voltou a afirmar que não há qualquer evidência que o comprometa nos documentos tornados públicos. Questionado na Casa Branca, o presidente declarou que os arquivos não trouxeram nada contra ele e classificou o episódio como parte de uma conspiração. Ao comentar o depoimento dos Clinton, o republicano disse lamentar a situação, mas afirmou que se trata de um problema interno dos democratas. Nenhum dos citados — Trump ou o casal Clinton — foi acusado formalmente de crimes penais relacionados a Epstein.
O presidente do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes, James Comer, afirmou que as audiências com os Clinton serão gravadas e transcritas, reforçando a mensagem de que “ninguém está acima da lei”. Segundo o comitê, o casal decidiu colaborar após meses de resistência, pouco antes de uma votação que poderia resultar em um processo por obstrução. Com a mudança de posição, a votação foi suspensa.
A divulgação dos arquivos também levantou preocupações sérias sobre privacidade. Advogados ouvidos pela imprensa americana apontaram que nomes de supostas vítimas, que deveriam permanecer sob sigilo, não foram devidamente ocultados, além da exposição de imagens e dados pessoais. Um pedido judicial para bloquear o acesso ao material chegou a ser analisado, mas a audiência prevista foi cancelada após um acordo entre as partes sobre questões de privacidade.
Além de políticos, outros nomes conhecidos reapareceram no noticiário com a divulgação dos documentos. Entre eles, o linguista Noam Chomsky, citado em e-mails antigos nos quais demonstrava solidariedade a Epstein em críticas à cobertura da imprensa. O ex-príncipe britânico Andrew, irmão do rei Charles III, também voltou ao centro das atenções após a circulação de novas imagens e mensagens, deixando sua residência em Windsor, segundo a imprensa local.
Paralelamente, especialistas alertaram para a disseminação de imagens falsas geradas por inteligência artificial, que passaram a circular nas redes sociais associando, de forma enganosa, líderes políticos a Epstein. Entre os alvos dessas montagens estariam a opositora venezuelana María Corina Machado e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani.
Enquanto Trump defende o encerramento do debate, as revelações continuam a produzir efeitos políticos e institucionais, mostrando que o caso Epstein permanece longe de um desfecho definitivo e segue alimentando investigações, controvérsias e disputas narrativas em diferentes partes do mundo.
