A Polícia Civil de Pernambuco admitiu oficialmente que o que chamou de “missão de inteligência” — que resultou no monitoramento de aliados do prefeito do Recife, João Campos (PSB) — não foi amparado por qualquer procedimento formal de investigação.
Em ofício encaminhado ao escritório Lacerda e Trindade Advogados Associados, o delegado-geral da corporação, Felipe Monteiro Costa, registrou que a ação não teve boletim de ocorrência, não foi instaurada Verificação Preliminar de Informação (VPI), não houve designação específica de delegado ou agentes, e nenhum número foi gerado no sistema eletrônico de processos oficiais. Também não foram trocados ofícios judiciais nem produzidos autos ou relatórios técnicos sobre a operação.
Segundo o documento, anexado à resposta da Polícia Civil, a missão de inteligência foi encerrada sem confirmação de indícios de crime, motivo pelo qual não houve a elaboração de relatório final ou formalização de peças de convicção. A corporação destacou que a denúncia anônima que motivou a ação sequer foi registrada em sistemas eletrônicos oficiais, tendo sido recebida apenas em envelope físico.
O caso veio a público após reportagem mostrar que agentes da Polícia Civil teriam instalado um rastreador em veículo utilizado por um secretário municipal do Recife e por um irmão dele, integrantes do grupo político ligado ao prefeito. Na época, a corporação afirmou que a apuração não havia gerado provas suficientes para abertura de inquérito.
O documento da própria corporação reforça que não há investigação formal registrada sobre os fatos — um ponto que intensifica questionamentos sobre a legalidade da atuação, sobretudo pela ausência de controle judicial ou de instauração de procedimento formal.
O episódio ganhou nova dimensão depois que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal investigue um possível monitoramento indevido, diante de indícios de que a atuação da Polícia Civil teria sido realizada sem amparo legal e com possível uso político.
A Prefeitura do Recife considerou que a confirmação oficial da inexistência de procedimento formal pela Polícia Civil reforça a alegação de que houve ação ilegal e com potencial motivação política. A gestão estadual, por sua vez, tem defendido que a atuação da polícia seguiu procedimentos legais de verificação preliminar e que não houve espionagem.
O caso segue sob investigação da Polícia Federal, enquanto repercute no contexto político de Pernambuco, onde João Campos e a governadora Raquel Lyra (PSD) são apontados como prováveis adversários na disputa pelo governo estadual em 2026.
