O intervalo do Super Bowl ganhou ares de cinema e pulsação caribenha no início da noite de domingo, quando Bad Bunny assumiu o centro do Levi’s Stadium, em Santa Clara, e transformou o espetáculo mais assistido da televisão americana em uma ode vibrante à cultura latina — com Porto Rico como coração e ponto de partida. Sem discursos diretos, mas com símbolos, música e afeto, o artista mostrou por que se tornou um fenômeno global e um dos nomes mais influentes da música contemporânea.
O show começou com Benito Antonio Martínez Ocasio surgindo em um cenário que remetia a uma plantação, evocando suas raízes e a trajetória construída a partir do reggaeton. Ao som de “Tití me preguntó” e “Solita”, ele deu início a uma narrativa visual e sonora que percorreu seus dez anos de carreira, marcada por coreografias precisas e uma cinematografia envolvente. Em clima de homenagem, citou pioneiros do gênero, como Tego Calderón, e entoou um trecho de “Gasolina”, clássico de Daddy Yankee que ajudou a projetar o reggaeton para o mundo.
Em um dos momentos mais comentados da noite, Bad Bunny dividiu os holofotes com Lady Gaga. Vestida com elegância e completamente à vontade, a cantora apresentou uma versão em salsa de “Die with a Smile”, arrancando aplausos e reforçando a ponte entre o pop global e as raízes latinas. Logo depois, com “Baile inolvidable” e “Nuevayol”, o anfitrião trouxe ao palco a sonoridade de Porto Rico reinterpretada para os dias atuais, antes de mergulhar no repertório de “Debí tirar más fotos”, álbum lançado em 2025 e vencedor recente do Grammy de álbum do ano — um feito histórico para um trabalho inteiramente cantado em espanhol.
Artista mais ouvido do mundo no Spotify em 2025, posição que alcança pela quarta vez desde 2020, Bad Bunny usou seus cerca de 13 minutos no palco para exaltar a identidade de uma ilha caribenha com pouco mais de três milhões de habitantes e uma história complexa. O simbolismo ficou ainda mais forte quando ele entregou a Ricky Martin a interpretação de “Lo que le pasó a Hawaii”, faixa intensa e emocional de seu álbum, reconhecido por críticos como uma verdadeira carta de amor a Porto Rico. Em outra cena marcante, o cantor entregou o Grammy conquistado a um menino no palco, gesto que sintetizou a ideia de legado e pertencimento.
O desfile de participações especiais — com figuras como o ator Pedro Pascal e as cantoras Cardi B e Karol G — reforçou o clima de celebração coletiva. Já no encerramento, Bad Bunny pediu a bênção de Deus para a América e para todos os países que a compõem, incluindo o Brasil. No telão, a frase dita por ele no Grammy, “a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, apareceu acompanhada por um desfile de bandeiras, selando uma mensagem de união em tempos de divisões.
Entre dança, memória e emoção, o astro porto-riquenho deixou claro que sua ascensão não é fruto do acaso. Foi, acima de tudo, o resultado de uma trajetória construída com identidade, coragem artística e um profundo compromisso com suas origens — algo que, naquela noite, encontrou eco em milhões de espectadores ao redor do mundo.