O Irã entrou oficialmente em um período de transição política e religiosa neste domingo (1º) com a nomeação do aiatolá Alireza Arafi como chefe do Conselho de Liderança interino do país. A missão do grupo é conduzir o processo de escolha de um novo líder supremo após a morte de Ali Khamenei, figura central do regime iraniano desde 1989. Até que a sucessão seja definida, o conselho passa a exercer as funções mais altas do Estado.
Além de Arafi, o órgão temporário é composto pelo presidente Masoud Pezeshkian e pelo chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei. O trio governará o país até que a Assembleia dos Peritos escolha “um líder permanente o mais rápido possível”, conforme prevê o sistema político da república islâmica.
A escolha de Alireza Arafi chama atenção pelo perfil discreto. Aos 67 anos, ele é visto como um clérigo de forte atuação institucional, mas com baixa projeção internacional e pouca presença no jogo político mais duro de Teerã. Apesar de ser próximo de Khamenei, não é considerado um nome influente entre os setores de segurança nem um articulador de peso dentro do regime. Antes da nomeação, ocupava o cargo de vice-presidente da Assembleia dos Peritos, além de já ter integrado o Conselho dos Guardiões, responsável por validar candidaturas eleitorais e revisar leis aprovadas pelo Parlamento. Atualmente, ele também comanda o sistema de seminários religiosos do país, função estratégica no universo clerical xiita.
Em um gesto que revelou seu trânsito institucional fora do Irã, Arafi chegou a se reunir, em 2022, com Papa Francisco, durante visita à Cidade do Vaticano, encontro que ganhou repercussão simbólica por aproximar líderes de tradições religiosas historicamente distantes.
A transição ocorre em meio a um cenário de forte instabilidade. Ali Khamenei morreu no sábado (28), durante o primeiro ataque de uma ofensiva militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra alvos estratégicos no território iraniano. A ação integra uma operação mais ampla que, segundo autoridades ocidentais, tem como objetivo enfraquecer e derrubar a república islâmica. A morte do líder supremo foi confirmada pela televisão estatal iraniana horas depois de o então presidente norte-americano Donald Trump anunciar o assassinato do clérigo de 86 anos, a quem classificou como “uma das pessoas mais perversas da história”.
As primeiras notícias vindas de Israel provocaram reações distintas dentro do Irã. Testemunhas relataram à AFP gritos de comemoração em algumas regiões de Teerã, enquanto colunas de fumaça preta se erguiam sobre o bairro onde Khamenei costumava residir. O episódio ocorreu poucas semanas após uma onda de protestos em massa ter sido reprimida com violência pelas forças de segurança, resultando na morte de milhares de pessoas, segundo organizações de direitos humanos.
Em resposta ao ataque, a Guarda Revolucionaria do Ira divulgou um comunicado prometendo uma punição “severa e decisiva” aos responsáveis pela morte do líder supremo. Enquanto isso, a nomeação de Alireza Arafi para chefiar o conselho interino marca o início de uma fase crítica para o Irã, em que a escolha do novo líder poderá redefinir os rumos políticos, religiosos e estratégicos do país em meio a um dos momentos mais tensos de sua história recente.
