Poucos personagens infantis atravessaram tantas gerações com a mesma doçura e simplicidade quanto o adorável Ursinho Pooh. O famoso ursinho amante de mel está prestes a completar um século de existência, mantendo viva uma presença que começou nas páginas de um livro e se transformou em um fenômeno cultural reconhecido em todo o planeta.
A história do personagem começou em 1926, quando o escritor britânico A. A. Milne publicou o primeiro livro dedicado ao personagem. As ilustrações ficaram a cargo do artista E. H. Shepard, responsável por dar forma visual ao universo do Bosque dos Cem Acres. A inspiração veio da vida pessoal do autor: o personagem foi criado a partir do filho de Milne, Christopher Robin, e de seus brinquedos de pelúcia, que incluíam figuras que mais tarde se tornariam conhecidos mundialmente, como Leitão, Ió, Coruja, Coelho e Guru.
Dois anos depois da estreia literária, outro personagem marcante entrou para o grupo: o enérgico Tigrão, apresentado em uma nova obra do autor que expandiu ainda mais o universo da história.
A popularidade do personagem cresceu ainda mais quando a The Walt Disney Company adquiriu os direitos da obra na década de 1960. A partir daí, Pooh ganhou projeção mundial por meio de animações, produtos licenciados e filmes. Em 1966, a Disney lançou o primeiro curta-metragem animado do personagem, estabelecendo uma das imagens mais icônicas da cultura pop: o ursinho usando apenas sua pequena camiseta vermelha.
Ao longo das décadas, os livros foram traduzidos para dezenas de idiomas, enquanto o personagem passou a estampar uma infinidade de produtos, como brinquedos, mochilas, relógios e lancheiras. Sua história também chegou ao cinema diversas vezes, incluindo o filme Christopher Robin, lançado em 2018, no qual o ator Ewan McGregor interpreta um Christopher Robin adulto que reencontra o velho amigo de infância.
Para os especialistas que estudam o legado do personagem, parte do segredo de sua longevidade está na simplicidade de sua personalidade. Kevin Kern, responsável por pesquisas nos arquivos da Disney em Burbank, afirma que Pooh reflete emoções e dilemas humanos de forma extremamente acessível. Segundo ele, o personagem demonstra sentimentos, enfrenta dificuldades e observa o mundo de maneira muito parecida com as pessoas — seja tentando alcançar um pote de mel no alto de uma árvore ou tentando compreender melhor seus amigos.
A influência do personagem ultrapassou o universo infantil e, por vezes, entrou em terrenos inesperados. Em 1972, a Disneylândia organizou um desfile em que Pooh foi apresentado de forma bem-humorada como candidato à presidência dos Estados Unidos, em meio à disputa entre Richard Nixon e George McGovern.
Décadas depois, o personagem voltou a se envolver em uma polêmica política involuntária quando críticos do líder chinês Xi Jinping passaram a compará-lo ao ursinho. O episódio levou censores ligados ao Partido Comunista Chinês a removerem referências ao personagem na internet do país.
No século XXI, Pooh também passou por interpretações inesperadas. Em 2023, após a expiração dos direitos autorais da obra original nos Estados Unidos, o personagem foi usado em panfletos distribuídos no Texas que orientavam crianças sobre como agir durante ataques a tiros em escolas. No mesmo ano, o ursinho apareceu em uma versão completamente diferente da original no filme de terror Winnie-the-Pooh: Blood and Honey, uma produção de baixo orçamento que surpreendeu a indústria ao recuperar seus custos nas bilheterias.
Apesar dessas releituras curiosas, o espírito original do personagem continua sendo lembrado por quem ajudou a levá-lo às telas. O animador Mark Henn, que trabalhou no filme Winnie the Pooh, afirma que desenhar o personagem foi uma experiência emocionante. Para ele, Pooh transmite uma sensação de calma e alegria rara, mesmo nos momentos em que demonstra irritação ou preocupação.
Às vésperas de completar 100 anos, o ursinho que dizia ter “pouco cérebro” continua provando exatamente o contrário: sua forma simples de ver o mundo permanece atravessando gerações e lembrando adultos e crianças de que, muitas vezes, a verdadeira sabedoria está nas coisas mais pequenas da vida.
