Levantamento recente do instituto Atlas/Intel revela um desafio inesperado para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a dificuldade de conquistar o eleitorado mais jovem. Segundo a pesquisa divulgada nesta quinta-feira (22), 75,5% dos entrevistados entre 16 e 24 anos desaprovam o atual governo, um índice superior até mesmo à rejeição registrada entre evangélicos, grupo que tradicionalmente apresenta resistência ao PT. Os números surpreendem lideranças petistas e expõem um distanciamento inédito entre o partido e uma faixa etária que, historicamente, foi decisiva para sua consolidação política.
Fundado em 1980, o PT construiu sua trajetória com forte apoio de jovens, sindicalistas e intelectuais, sobretudo no período da redemocratização. Essa base foi essencial para a ascensão de Lula ao Palácio do Planalto. O cenário atual, no entanto, é outro. A nova geração cresceu com o partido já consolidado no poder e não o associa à ideia de mudança. Mais conservadores e desconfiados da política tradicional, esses jovens também demonstram pouca identificação com a forma de comunicação do governo, considerada excessivamente analógica para as gerações Z e Alpha.
Internamente, o partido reconhece o problema, embora avalie de forma positiva o trabalho do ministro Sidônio Palmeira à frente da comunicação institucional. Parlamentares petistas afirmam que a mensagem do governo tem conseguido ultrapassar a chamada “bolha da esquerda”, mas admitem que a direita mantém ampla vantagem na disputa de narrativas nas redes sociais. Como estratégia para reverter o quadro entre os mais jovens, o Planalto aposta na defesa do fim da escala de trabalho 6×1, vista como uma pauta capaz de dialogar com as novas gerações. Ainda assim, aliados avaliam que um impacto significativo até 2026 é improvável, embora insistam na agenda como forma de ampliar a popularidade do presidente.
Apesar da rejeição elevada em segmentos específicos, Lula segue na liderança das intenções de voto. Nos cenários de primeiro turno, o petista aparece com índices entre 48% e 49%. Já nas simulações de segundo turno, mantém cerca de 49%, à frente de todos os potenciais adversários, mas com dificuldade para atrair eleitores indecisos ou de outros campos políticos. Esse limite também aparece quando os entrevistados são questionados sobre em quem não votariam de jeito nenhum: Lula surge como o segundo mais rejeitado, com 49,7%, atrás apenas do ex-presidente Jair Bolsonaro, que alcança 50%, mesmo estando inelegível.
Os dados preocupam o núcleo governista porque indicam que avanços recentes na economia ainda não se converteram em capital eleitoral. Indicadores como desemprego em níveis historicamente baixos, inflação controlada, aprovação da isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil e maior protagonismo internacional não têm sido suficientes para reduzir a resistência ao presidente. A pesquisa ouviu 5.418 pessoas entre os dias 15 e 20 de janeiro, por meio de recrutamento digital aleatório, e tem margem de erro de um ponto percentual. Registrado no TSE, o levantamento reforça que, embora Lula lidere a corrida eleitoral, o desafio de reconectar o PT aos jovens se tornou um dos principais testes políticos do atual governo.