O governo de Marcílio Régio enfrenta mais um episódio daqueles que começam como dor de cabeça e rapidamente evoluem para uma enxaqueca política. Nos bastidores, sob o conveniente manto do “off”, aliados dão como certa a candidatura do ex-prefeito Eduardo Honório a deputado federal pela federação União Brasil–Progressistas, legenda que ele preside no município de Goiana. Honório, aliás, já teria feito questão de espalhar aos quatro cantos da cidade que será candidato — ainda que oficialmente continue em um silêncio que fala alto demais.
A movimentação agrada o pré-candidato ao Senado Eduardo da Fonte, presidente da federação UB/PP-PE que vê em Honório um ativo eleitoral valioso. Não por acaso. O ex-prefeito saiu fortalecido do processo eleitoral de 2024 e, em 2025, foi o principal fiador político da eleição que alçou Marcílio Régio ao comando da Prefeitura de Goiana. Na matemática fria da federação, Honório entrega voto, território e influência — combinação rara e decisiva.
O entusiasmo também encontra eco no deputado estadual Antônio Moraes, entusiasta de uma possível dobradinha: Honório disputando uma vaga na Câmara Federal e Moraes buscando a reeleição na Alepe. Uma engenharia eleitoral que favorece diretamente o deputado estadual, mas que acende o alerta máximo no núcleo do governo.
É nesse ponto que a tensão se instala. Marcílio Régio mantém apoio velado ao deputado federal Guilherme Uchôa Júnior, que tenta a reeleição e é tratado pelo prefeito como o nome prioritário para concentrar a votação federal em Goiana. A entrada de Honório na disputa desmonta essa estratégia com facilidade, criando um cenário considerado internamente como altamente danoso ao governo, tanto eleitoral quanto politicamente.
Mais grave ainda é o efeito colateral dentro da própria gestão. Uma candidatura de Honório tende a escancarar fissuras no bloco governista, podendo rachar a base aliada. Há secretários, assessores e quadros do segundo e terceiro escalões que mantêm um cordão umbilical político com o ex-prefeito e que podem se ver diante de uma escolha desconfortável entre a lealdade a quem os formou politicamente e a permanência em cargos estratégicos.
Enquanto o governo tenta administrar o incômodo em silêncio, Honório segue em movimento. Intensifica caminhadas, visita obras iniciadas ou concluídas durante sua gestão e ocupa o território com a naturalidade de quem já está em campanha, ainda que sem assumir publicamente. Nos bastidores, a leitura é quase unânime: o jogo começou. E, desta vez, o governo Marcílio Régio pode não ter o controle do tabuleiro.
