O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu, na véspera da cerimônia, não participar da posse do novo presidente do Chile, José Antonio Kast. A mudança de planos ocorreu poucos dias após a viagem ter sido confirmada oficialmente e surpreendeu integrantes do governo e diplomatas envolvidos na organização do evento.
A cerimônia está marcada para esta quarta-feira (11), na cidade de Valparaíso, e o governo brasileiro será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A decisão de Lula começou a circular internamente no Palácio do Planalto na manhã desta terça-feira (10), chegando inclusive a diplomatas que já estavam em território chileno preparando a visita.
O convite para a posse havia sido feito pessoalmente por Kast, que nas últimas semanas demonstrou interesse em contar com a presença do presidente brasileiro como gesto de aproximação política. Os dois líderes chegaram a se encontrar em janeiro, durante um evento internacional no Panamá, ocasião em que mantiveram uma conversa considerada cordial por integrantes das duas delegações.
A presença de Lula na cerimônia vinha sendo analisada como parte de uma estratégia diplomática para demonstrar pragmatismo e abertura ao diálogo com governos de diferentes correntes ideológicas na América Latina, inclusive lideranças de direita. A iniciativa também era vista como um movimento para evitar a formação de um bloco regional de oposição que pudesse se articular politicamente contra o governo brasileiro.
Apesar da desistência de Lula, a cerimônia deve reunir nomes ligados à direita brasileira. O senador Flávio Bolsonaro confirmou presença no evento. Também é esperada a participação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, aliado próximo do presidente chileno e figura ativa em articulações políticas internacionais. O ex-presidente Jair Bolsonaro já manifestou publicamente admiração por Kast e recebeu apoio do líder chileno durante a eleição presidencial brasileira de 2022.
A relação entre Kast e a família Bolsonaro é conhecida no meio político. O chileno, identificado com posições conservadoras, tem mantido diálogo frequente com aliados do ex-presidente brasileiro e participou recentemente de encontros internacionais com lideranças alinhadas à direita.
Outro tema que vinha sendo discutido entre Brasília e Santiago envolve a possível candidatura da ex-presidente chilena Michelle Bachelet ao cargo de secretária-geral da Organização das Nações Unidas. O assunto gerou certo desconforto político no Chile após o governo brasileiro intensificar a defesa do nome da ex-mandatária para a função.
Na semana passada, Kast também participou de um encontro internacional promovido nos Estados Unidos ao lado do presidente Donald Trump e de outros governantes conservadores da região. O evento reuniu lideranças que discutiram cooperação regional e estratégias de combate ao crime organizado.
Mesmo com a ausência de Lula, a posse do novo presidente chileno deve ocorrer em meio a forte simbolismo político, refletindo as novas alianças e disputas de influência que se desenham no cenário latino-americano.
