Sob o sol forte do calor tropical e o som vibrante de cânticos, o Papa Leão XIV foi recebido com entusiasmo nesta segunda-feira (20) em Saurimo, no leste de Angola. A escolha do destino para o terceiro dia de sua viagem apostólica foi estratégica: localizada a mais de 800 quilômetros da capital, a província de Lunda Sul é uma região que, embora vizinha a ricas zonas diamantíferas, convive com o isolamento e a falta de infraestrutura básica. Ao avançar em seu papamóvel por ruas tomadas por milhares de fiéis e crianças que agitavam lenços brancos, o pontífice reforçou sua missão de dar voz às áreas mais vulneráveis do continente africano.
A agenda do líder da Igreja Católica começou com um mergulho na realidade humana mais fragilizada da província. Em uma visita emocionante a uma casa de repouso, Leão XIV ouviu testemunhos de idosos que enfrentaram o abandono e a violência. Entre os relatos, destacou-se o de um senhor de 72 anos que compartilhou as dores de abusos sofridos no seio familiar, encontrando no acolhimento do Papa um momento de dignidade e escuta. Esse contato direto com os marginalizados serviu de preâmbulo para a celebração de uma missa ao ar livre, voltada a uma multidão unida pela fé e pelo desejo de superação das dificuldades sociais.
A visita ocorre em um cenário de grandes contrastes para o povo angolano. Apesar das riquezas provenientes do petróleo e da mineração, cerca de um terço da população do país ainda vive abaixo da linha da pobreza. Diante dessa realidade, o Papa não hesitou em abordar temas espinhosos, classificando a corrupção como uma “chaga” que impede o desenvolvimento e a justiça. Em seus discursos, ele insistiu na necessidade de curar divisões históricas e de estabelecer uma nova forma de gestão dos recursos naturais, criticando os impactos ambientais da exploração predatória que muitas vezes ignora o bem-estar das comunidades locais.
Antes de seguir para a etapa final de sua jornada pela África, que incluirá a Guiné Equatorial, o pontífice retorna a Luanda para dialogar com bispos e religiosos locais. O encontro na capital deve focar nos desafios da Igreja em solo angolano, como a limitação de recursos e a crescente concorrência de outras denominações. Como o terceiro papa a visitar o país desde a independência, Leão XIV tenta consolidar um papel que vai além do rito religioso, posicionando-se como um mediador moral que pede que a riqueza da terra finalmente se transforme em dignidade para os milhões de angolanos que ainda buscam por justiça social.
