O surto de hantavírus registrado a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius colocou autoridades sanitárias de diversos países em estado de alerta e provocou uma operação internacional de monitoramento de passageiros e tripulantes. A embarcação, de bandeira holandesa, segue em direção às Ilhas Canárias, na Espanha, onde deve atracar neste domingo, após uma viagem marcada por mortes, evacuações médicas e suspeitas de transmissão da cepa mais perigosa do vírus.
O cruzeiro saiu de Ushuaia, na Argentina, com destino a Cabo Verde, levando 88 passageiros e 59 tripulantes de 23 nacionalidades. O cenário, inicialmente vendido como uma experiência turística paradisíaca, rapidamente se transformou em preocupação sanitária após a morte de passageiros a bordo. Uma das mortes já foi confirmada como causada por hantavírus, enquanto outras duas seguem sob investigação.
Durante a viagem, três pessoas foram retiradas do navio pela Organização Mundial da Saúde (OMS): dois tripulantes doentes e um passageiro que teve contato direto com casos confirmados. Eles deixaram Cabo Verde em voos distintos rumo à Europa. Dois pacientes foram hospitalizados em centros universitários na Holanda e na Alemanha, enquanto o terceiro desembarcou em Amsterdã nesta quinta-feira. Segundo a OMS, todos estão em condição estável, sendo que um deles não apresenta sintomas.
Além desses casos, há ainda um paciente internado em Joanesburgo, na África do Sul, e outro hospitalizado em Zurique, na Suíça. O caso suíço confirmou a presença da cepa Andes, considerada a única variante conhecida do hantavírus com potencial de transmissão entre humanos. A confirmação elevou a tensão entre autoridades de saúde, principalmente porque uma passageira holandesa, que morreu posteriormente na África do Sul, viajou apresentando sintomas em um voo comercial após desembarcar do cruzeiro.
As autoridades sul-africanas agora trabalham para rastrear passageiros e tripulantes do voo realizado entre a ilha de Santa Helena e Joanesburgo. A companhia aérea Airlink informou que a aeronave transportava 82 passageiros e seis tripulantes. Na Holanda, uma comissária da KLM também passou a ser monitorada após apresentar sintomas leves compatíveis com a doença.
O passageiro turco Ruhi Cenet, blogueiro conhecido nas redes sociais, relatou momentos de tensão dentro do navio. Segundo ele, o clima mudou completamente após o anúncio da primeira morte, em 12 de abril. Cenet criticou a condução inicial da situação e afirmou que a possibilidade de uma doença contagiosa não teria sido levada suficientemente a sério nos primeiros dias.
Especialistas da OMS acreditam que o primeiro caso registrado no cruzeiro ocorreu antes mesmo do embarque na Argentina. A infectologista Anais Lagand explicou que o período de incubação do hantavírus varia entre uma e seis semanas, o que indica que a exposição ao vírus aconteceu anteriormente, provavelmente por contato com roedores infectados. O Ministério da Saúde da Argentina informou que enviará equipes técnicas para investigar possíveis focos do vírus na região de Ushuaia.
Transmitido principalmente pela urina, fezes e saliva de roedores contaminados, o hantavírus pode causar febres hemorrágicas e complicações respiratórias graves. Apesar da repercussão internacional do caso, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que o risco de disseminação global permanece baixo e destacou que a situação não se compara ao início da pandemia de covid-19.
A chegada do MV Hondius às Ilhas Canárias já mobiliza autoridades espanholas. A ministra da Saúde da Espanha, Mónica García, informou que o navio atracará em Granadilla, na ilha de Tenerife, e que os passageiros estrangeiros serão repatriados após avaliação médica, exceto aqueles em estado grave. Dois especialistas em doenças infecciosas acompanham a embarcação durante o restante da travessia.
Em nota, a empresa Oceanwide Expeditions afirmou que nenhum ocupante do navio apresenta sintomas atualmente, mas confirmou que cerca de 30 passageiros desembarcaram na ilha de Santa Helena no fim de abril. A operadora também informou que está colaborando com autoridades internacionais para rastrear todos os passageiros e tripulantes que passaram pelo navio desde março.
