A corrida rumo ao Palácio do Planalto ganhou um novo componente estético e narrativo com a recente ofensiva digital do senador Flávio Bolsonaro. Em uma tentativa de descolar sua imagem da intransigência frequentemente associada ao sobrenome da família, o parlamentar fluminense vem utilizando as redes sociais para pavimentar o que chama de “Bolsonaro moderado”. O lance mais recente dessa estratégia foi a divulgação de um vídeo íntimo e familiar, onde sua esposa, Fernanda Bolsonaro, assume o papel de fiadora dessa transformação, afirmando com leveza que o marido foi “reeducado” por ela ao longo dos anos. A fala, longe de ser um detalhe doméstico, é uma peça-chave de marketing político destinada a humanizar o pré-candidato do PL e, principalmente, reduzir as altas taxas de rejeição herdadas do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Essa nova roupagem não é apenas retórica, mas fundamentada em dados que a equipe de campanha observa com lupa. Pesquisas recentes indicam uma oscilação sutil, porém significativa, na percepção do eleitorado: o número de brasileiros que o enxergam como uma figura tão radical quanto seus familiares caiu, enquanto a parcela que o vê como um nome mais centrado começa a ganhar corpo. Para alimentar essa percepção, Flávio tem recorrido a contrastes biográficos pontuais com o pai, como o fato de ter se vacinado contra a Covid-19 e sua postura declaradamente mais “centrada” em temas sensíveis. Ao se apresentar como um “Bolsonaro vacinado”, o senador busca capturar o eleitor conservador que compartilha dos princípios da direita, mas que anseia por uma liderança com menor propensão ao conflito institucional.
O aceno ao eleitorado feminino é outra pilastra central dessa metamorfose. Em discursos recentes, como o proferido na Avenida Paulista, o senador trocou as pautas de costumes tradicionais por uma “defesa intransigente das mulheres”, citando sua vivência como pai de duas filhas para condenar o feminicídio. Essa guinada em direção a pautas identitárias, contudo, tem provocado curtos-circuitos dentro da própria base aliada. Ao votar a favor da lei que equipara a misoginia ao crime de racismo e ao sair em defesa do jogador Vinicius Júnior contra ataques racistas na Espanha, Flávio enfrentou o fogo amigo de setores da direita e até críticas veladas do próprio irmão, Eduardo Bolsonaro. O episódio revelou o desafio equilibrado que o senador terá pela frente: flertar com o centro e com causas progressistas sem desidratar o apoio da militância mais fiel ao bolsonarismo raiz.
Entre vídeos de rotina familiar e votos que surpreendem a oposição, Flávio Bolsonaro tenta provar que o sangue e os princípios são os mesmos, mas que o tom da música mudou. Ao utilizar o Dia Internacional da Mulher para criticar o atual governo sob uma ótica de proteção feminina, ele demonstra que a estratégia é ocupar espaços que antes eram terreno exclusivo da esquerda. Se essa “reeducação” anunciada por sua esposa será suficiente para convencer o eleitor de que ele é, de fato, uma versão mais palatável e moderna do clã, é uma resposta que apenas as urnas e a consolidação dessa nova identidade política poderão fornecer nos próximos meses.
