A esquerda colombiana saiu fortalecida das eleições legislativas realizadas no último domingo (8), abrindo um novo capítulo na intensa disputa política que antecede a eleição presidencial marcada para o fim de maio. Liderado pelo presidente Gustavo Petro, o campo progressista conquistou a maior bancada tanto na Câmara quanto no Senado, resultado que amplia sua influência no Congresso e reposiciona o governo no cenário político nacional.
De acordo com projeções iniciais, o Pacto Histórico, base de apoio de Petro, garantiu 25 das 103 cadeiras no Senado e 40 das 188 vagas na Câmara dos Deputados. Apesar da vantagem, o novo Congresso, que tomará posse em 20 de julho, será marcado por forte fragmentação partidária, o que indica que alianças serão indispensáveis para a formação de maioria e para a aprovação de projetos estratégicos.
O resultado das legislativas é visto como um termômetro político antes da eleição presidencial de 31 de maio. Entre os principais nomes na disputa estão o senador Iván Cepeda, aliado de Petro, e o advogado conservador Abelardo de la Espriella, conhecido por admirar líderes como Nayib Bukele e Donald Trump. As pesquisas indicam que nenhum dos candidatos deve alcançar votos suficientes para vencer no primeiro turno, o que aumenta a probabilidade de uma segunda rodada eleitoral, prevista para 21 de junho.
A disputa também pode ganhar novos contornos com o avanço da candidata conservadora Paloma Valencia, ligada ao grupo político do ex-presidente Álvaro Uribe. Uribe voltou recentemente ao centro do debate político após um tribunal revogar, em outubro, sua condenação a 12 anos de prisão domiciliar por suborno a paramilitares e fraude processual.
O desempenho da esquerda nas urnas também impacta diretamente os últimos meses do mandato de Petro, que não pode concorrer à reeleição. Durante seu governo, o presidente enfrentou forte resistência no Congresso, que acabou barrando propostas importantes, como mudanças no sistema de saúde e uma reforma tributária destinada a enfrentar o déficit fiscal. Em resposta às derrotas legislativas, Petro chegou a convocar manifestações populares e fez duras críticas ao Parlamento, instituição que enfrenta desgaste junto à população após sucessivos escândalos de corrupção.
Mesmo com essas tensões, o governo parece ter recuperado parte do apoio político recentemente, em meio aos atritos diplomáticos com Donald Trump relacionados a políticas de deportação, ameaças de sanções e trocas de acusações envolvendo o combate ao narcotráfico.
Ao comemorar o resultado eleitoral, Iván Cepeda afirmou que o campo progressista inicia uma nova etapa com uma base parlamentar mais robusta. Já Abelardo de la Espriella demonstrou preocupação com o avanço da esquerda no Congresso, classificando o cenário como alarmante para os setores conservadores.
As eleições, no entanto, voltaram a evidenciar um problema histórico da política colombiana: a violência associada ao conflito armado que atravessa o país há mais de meio século. Durante o processo de votação e apuração, dois ataques guerrilheiros foram registrados no sul da Colômbia, embora não tenham deixado vítimas.
Antes mesmo do pleito, observadores eleitorais já alertavam para um ambiente de tensão após episódios de violência política, incluindo o assassinato do candidato presidencial de direita Miguel Uribe Turbay, neto do ex-presidente Julio César Turbay Ayala.
O cenário de insegurança também reflete o fortalecimento de grupos armados e do crime organizado. Após o desmantelamento dos antigos cartéis de drogas de Cali e Medellín, que dominaram o narcotráfico nos anos 1990, a estrutura criminosa no país se fragmentou em diversas organizações menores, consideradas mais violentas e difíceis de combater.
Entre esses grupos estão remanescentes de guerrilhas históricas como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional, que ao longo do tempo abandonaram parte de seus objetivos políticos e passaram a atuar cada vez mais ligados a atividades criminosas.
Com um Congresso dividido, tensões internas e um cenário de segurança ainda delicado, a Colômbia caminha para uma eleição presidencial que promete ser uma das mais disputadas dos últimos anos. O resultado poderá definir não apenas o futuro do governo, mas também os rumos políticos do país em meio a desafios históricos que ainda permanecem no horizonte.
