O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, consolidou nesta semana sua posição como uma das principais vozes do campo progressista no cenário internacional ao receber em Barcelona uma cúpula global que reuniu lideranças de esquerda de diferentes países, entre elas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O encontro, chamado de Mobilização Progressista Global, reúne chefes de Estado, prefeitos e representantes de partidos políticos de várias partes do mundo em um momento de reorganização das forças progressistas diante do avanço da extrema direita em diferentes regiões. Sánchez e Lula devem ser os principais oradores do evento.
A ascensão internacional do líder espanhol ocorre em meio a uma postura mais confrontadora em relação a temas globais sensíveis, especialmente no campo da política externa. Sánchez tem adotado posições críticas aos Estados Unidos em episódios recentes e também tem ampliado seu tom de cobrança em relação a Israel, o que o colocou em rota de colisão com o presidente americano Donald Trump.
O episódio mais recente dessa tensão ocorreu após Sánchez se posicionar contra a ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o que levou Trump a ameaçar a Espanha com possíveis retaliações comerciais. A divergência reforçou a imagem do primeiro-ministro espanhol como uma das vozes mais dissonantes dentro do bloco ocidental.
No ano anterior, Sánchez também já havia se afastado da linha defendida por Trump ao rejeitar a proposta de aumento dos gastos militares dos países da Otan para 5% do PIB, uma exigência considerada central pelo ex-presidente norte-americano. Além disso, o líder espanhol ganhou repercussão internacional ao classificar como “genocídio” a guerra de Israel na Faixa de Gaza, em meio ao conflito com o Hamas.
Analistas apontam que essa postura mais firme em temas internacionais tem ampliado a projeção de Sánchez fora da Europa. Segundo especialistas do Real Instituto Elcano, a coerência de suas posições tem fortalecido sua imagem especialmente na América Latina e em países do chamado Sul Global.
Esse reposicionamento também foi destacado por observadores políticos na Espanha, que avaliam que o país passou a ter maior influência dentro da União Europeia sob sua liderança. Ao mesmo tempo, veículos da imprensa internacional passaram a retratar Sánchez como uma figura de destaque na oposição política ao eixo liderado por Trump, com publicações estrangeiras chegando a descrevê-lo como uma espécie de contraponto europeu ao ex-presidente americano.
Apesar da crescente visibilidade internacional, o cenário doméstico de Sánchez é marcado por desafios. O primeiro-ministro governa sem maioria parlamentar consolidada desde que chegou ao poder, em 2018, e enfrenta desgaste político relacionado a escândalos envolvendo aliados e familiares, o que tem alimentado críticas da oposição.
Ainda assim, sua atuação no cenário externo é vista por aliados como uma forma de reforçar sua posição política interna. Pesquisas recentes indicam que parte significativa da população espanhola rejeita conflitos armados recentes, o que ajuda a sustentar algumas das posições adotadas pelo governo.
A oposição conservadora, no entanto, acusa Sánchez de utilizar a política externa como estratégia para reforçar a coesão da esquerda no país e desviar o foco de problemas domésticos. Mesmo assim, o primeiro-ministro segue ampliando sua presença em fóruns internacionais, com a cúpula em Barcelona sendo mais um passo nessa projeção global.
